(por Pr. Guilherme Gimenez)

Foi exatamente com essa frase que um antigo funcionário recebeu seu colega em seu primeiro dia de trabalho. Estaria ele com medo? Talvez, mas também é possível que essa fosse uma forma de deixar claro ao novato um pensamento bem discorrido pelas teorias de meritocracia, algo que costumo chamar de “segurança do tempo”.
Há uma série de artigos sobre esse pensamento; é bom deixar claro que ele atinge todos os campos possíveis, da empresa à família.
O filho mais velho, o funcionário mais antigo, o primeiro morador do prédio e o membro fundador do clube têm um sentimento comum: uma espécie de segurança adquirida pelo tempo. Inclui-se um sentimento de privilégio adquirido ou de honra especial, não propriamente por quem é ou faz, mas sim pelo tempo que está naquele ambiente. Ainda que muitos não digam, a frase que lhes vem à mente é a mesma daquele funcionário: “esse é meu território”. E, utilizando todas as ferramentas da meritocracia, essa pessoa, realmente, se sente mais importante do que os mais novos, chegando, em alguns casos, a humilhá-los em nome dessa segurança adquirida com o tempo.

É bem verdade que alguns se sentem assim também por tudo o que realizaram desde o momento que chegaram à empresa, à família, ao condomínio, à igreja ou a qualquer outro grupo social. Muitos sofreram até as dificuldades iniciais para começar um negócio; há histórias e mais histórias de quem se doou muito e, hoje, se sente mais merecedor do que aqueles que chegaram depois, praticamente para usufruir do que fora construído nos anos ou décadas anteriores.

É um sentimento comum, comenta Kevin Thom, economista da Universidade de Nova York, em uma pesquisa inovadora sobre meritocracia de Andrew Van Dam (Meritocracy in Our Society Is a Lie. Genes Reveal It’s Better to Be Born Rich Than Talented. Science Alert).
Mas, apesar de comum, é impróprio para o crescimento de um grupo social. Quando alguém se sente mais merecedor pelo que fez ou pelo tempo que ocupa um lugar, tem a tendência de resistir a novas ideias, não recebe bem os mais novos e também não trabalha de “igual para igual” em uma equipe.
É preciso ser muito maduro – comenta Kevin – para não se deixar dominar por sentimentos de superioridade e egoísmo e, assim, não atrapalhar o trabalho em equipe.

É mais saudável ter um sentimento de pertencimento não dominador, de se sentir privilegiado por estar em um lugar há mais tempo ou, então, de ter se doado mais do que outros. Esse sentimento recebe o mais novo com um coração aberto a aprender, afinal, sempre estamos recomeçando, sempre alguém estará vivenciando o que o mais velho naquele local vivenciou.
Tal sentimento também nos tira desse ambiente de competição, de desgaste emocional por nos sentirmos ameaçados pelo mais novo.
A segurança do tempo pode ser substituída pelo privilégio do tempo.
Em vez de “esse é o meu território”, pode-se dizer algo do tipo “seja bem-vindo ao nosso território.” Isso é mais solidário, ajuda mais o mais novo e também o que está há mais tempo, pois, independentemente de quanto tempo se está em algum lugar, o tempo nos impõe chegadas e saídas e, sem elas, nenhum grupo resiste ao tempo.
É um privilégio estar há mais tempo.
É uma honra ter se doado mais.
Esse sentimento será a plataforma para receber bem os mais novos, ajudá-los nos processos de integração e vê-los, daqui a algum tempo, comemorando um tempo logo ao nosso lado ou nos substituindo.

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