LIDERANÇA E ESPIRITUALIDADE

Guilherme Gimenez: Pastor, Professor, Teólogo e Maratonista

Mês: março 2019

QUEM NÃO VIVE PARA SERVIR NÃO SERVE PARA VIVER

Uma das frases que ouvi bastante em minha infância e adolescência foi essa: “Quem não serve para servir não serve para viver”. Lembro-me de vários líderes usando-a para despertar o voluntariado e a disponibilidade de pessoas. Aparentemente, a frase atingia o efeito desejado. Mas isso foi há mais de 35 anos. Percebi que, de lá para cá, algo mudou quando, em uma aula dada no ano de 2018, um aluno mais velho da classe a utilizou e, logo, uma série de comentários negativos sobre ela se levantaram. Frases do tipo: “Então, eu só tenho valor se servir?” ou “Eu valho pelo que faço, e não por quem sou?” Esses comentários me levaram a repensar a frase. E, ao fazer isso, cheguei a algumas conclusões: Não valemos pelo que fazemos, mas agregamos valor à nossa vida e à vida de outros quando fazemos.

A questão não está no ato em si, mas no que está associado a ele. Ao servir, colocamos nossos dons, talentos, tempo, potencial, criatividade e outros recursos dos quais dispomos em prática, e isso agrega valor a nós mesmos, pois a prática vai nos tornando mais excelentes, nós melhoramos ao praticarmos. Sentimo-nos mais valorosos quando conseguimos transformar nosso potencial em ações que não beneficiam apenas os outros, mas a nós mesmos. Nossa autoestima melhora quando servimos. Igual efeito acontece com aqueles a quem servimos. Eles também se sentem valorizados, pois, ao receber qualquer tipo de ajuda, uma pessoa associa ao gesto recebido sentimentos, como amor, preocupação, gentileza e outros. A pessoa que recebe é muitíssimo beneficiada com nossos atos de serviço. Nós nos sentimos melhores, e quem é servido também se sente. E aqui se agrega muito valor à vida, nossa e do outro, servir traz consigo essa dádiva da existência em sua expressão mais prática.

Mas também não podemos esquecer que servir une pessoas e as desperta para viverem juntas. Russell Shedd escreveu um livro chamado A Solidariedade da Raça (Edições Vida Nova, 1995) e, nele, nos lembra que há uma ligação entre os seres humanos, o que ele chama de solidariedade. Não nascemos para vivermos sozinhos, a coletividade é nossa linguagem. E é incrível como servir uma pessoa nos faz vivenciar essa solidariedade de forma tão forte que, raramente, nos esquecemos das pessoas a quem servimos e por quem fomos servidos. Servir é convidar o outro para o seu mundo através de um gesto, seja ele qual for. Dar um prato de comida a um faminto ou abrir a porta de um auditório para alguém entrar são maneiras de aproximação de pessoas. Da mesma forma, receber ajuda também é. Aquele que dá e o que recebe se unem, pelo menos naquele momento, e se sentem parte um do outro. Se continuarão unidos é outra história, mas que o servir nos faz solidários, isso faz.

Viver para servir é uma possibilidade. Seria melhor se fosse um imperativo, mas não é. Alguns não querem servir e não servirão ninguém. E, acredite, alguns, mesmo precisando, também não aceitarão ser servidos. A esses fica o respeito, e a expectativa de que um dia entendam os benefícios de dar e receber, de ajudar e ser ajudado, de servir e ser servido. Que tal solidariedade seja cada vez mais visível entre nós.

Por Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

15+

Consegui… 35km de corrida por São Paulo…

Nesse último sábado, dia 16 de março de 2019, fiz meu último treino longo antes da Maratona de Santiago. Corri 35km… Grande aventura… Experiência única… Para mim foi uma mistura de emoção e superação. Eu sinceramente não esperava chegar a uma distância tão grande em um período tão curto.

Curta o vídeo que eu fiz com o trajeto e algumas experiências durante a corrida clicando aqui.

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Detalhes da corrida: Tempo: 3H47M25S

Pace: 6:30

Calorias: 2.102

Velocidade: 9,3 km/h

Frequência cardíaca média: 159bpm

Cadência média: 170 rpm

Trajeto: Avenida Braz Leme, Ponte da Casa Verdade, Avenida Abraão Ribeiro, Memorial da América Latina, Terminal Barra Funda, Avenida Francisco Matarazzo, Shopping Bourbon, Avenida Sumaré, Avenida Dr. Arnaldo, Avenida Paulista, Avenida Vergueiro, Rua Senna Madureira, Parque do Ibirapuera, Avenida Brasil, Avenida Henrique Schaumann e retorno pela Avenida Sumaré

4+

INSATISFEITO

“Eu quero mais” – Essa é a frase que define bem o indivíduo insatisfeito. Não importa o que ou quanto ele tenha, ainda assim, ele quer mais. É como se houvesse um vazio ou um buraco em sua existência, por onde sempre escapa algo e, por isso, é necessário, continuamente, preencher, sempre buscando por mais. A frase vale para valores materiais, sensações ou, dependendo do caso, até relacionamentos interpessoais. O rico quer ficar mais rico. O aventureiro quer mais aventuras. O amante quer mais relacionamentos, e por aí vai. O insatisfeito está continuamente em busca de algo ou alguém.
Um exemplo nítido disso está em uma pesquisa realizada pela Escola de Negócios da Universidade de Harvard e divulgada pela BBC News (01/01/2018. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-42512066#). O pesquisador responsável pelo estudo, Grant Donelly, entrevistou mais de 4000 milionários do mundo e concluiu que para “um quarto dos milionários entrevistados, para ser ‘feliz’, precisaria que sua riqueza aumentasse em 1.000%.” A que podemos atribuir essa necessidade de ter mais? Alguns diriam ambição. Eu prefiro chamar de insatisfação. A ambição pode levá-lo a querer conquistar mais, porém apenas a insatisfação o faz ir em busca da felicidade mensurada por aquisição. O princípio dessa busca por felicidade através do ter mais serve também para aquele que busca emoções maiores, como o praticante de esportes radicais. De vez em quando, vemos um desses morrer em suas aventuras porque estava tentando realizar algo ainda mais difícil, que lhe desse – como eles mesmos dizem – mais adrenalina. E, por mais estranho que possa parecer, quantos casamentos não foram rompidos porque um dos cônjuges também foi atrás de mais relacionamentos na tentativa de ser mais feliz.

A grande questão que incomoda nesse processo de insatisfação é que a sensação de adquirir não corresponde à realidade. O milionário precisará, realmente, de mais dinheiro para ser feliz? Quantos deles, já nos últimos anos de vida, ainda buscam por mais dinheiro, ainda que saibam que sequer conseguirão gastá-lo. E o perigo da morte que o aventureiro corre diante de um desafio que lhe produza ainda mais emoção? E o prejuízo a uma família inteira, em função de uma aventura extraconjugal justificada pelo amor? A realidade fica contrastada por essa busca desenfreada pelo “mais” que, muitas vezes, acaba se transformando em perda, afinal, não são poucas as histórias de ricos que encerram sua vida gravemente enfermos, de aventureiros que passam seus últimos anos de vida sobre uma cama após um acidente ou daqueles que, em busca de romances, encerram seus dias sozinhos.

Um conselho interessante, extraído da Bíblia, pode nos ajudar a lidar com a insatisfação: “Quem ama o dinheiro nunca terá o suficiente. Quem ama a riqueza nunca se satisfará com o que ganha. Não faz sentido viver desse modo!” (Eclesiastes 5.10). Em outras palavras, para lidar com a insatisfação, é necessária uma dose de realidade bem expressa pela frase “não faz sentido viver desse modo”. A insatisfação não faz sentido. A busca por mais e mais não faz sentido. E, se não faz sentido, logo, precisa ser dominada, isto é algo que todo ser humano pode aprender desde que tenha domínio sobre o ímpeto de obter mais e se lembre, constantemente, da finitude da vida e de que há um limite para tudo: para a riqueza, para a aventura, para o amor, e por aí vai. Contentamento é possível e desejável. Que tenhamos a sabedoria de desenvolvê-lo.

14+

REFÉNS DA OBSOLESCÊNCIA

(por Guilherme Gimenez)

“O maior desafio das mudanças é perceber que algumas delas não são opcionais. Ou mudamos ou então ficamos reféns da obsolescência”.
(John Terry)

Redução gradativa e consequente desaparecimento. Esse é um dos significados da palavra ‘obsolescência’.
Ela indica o final de um processo que resulta em sua extinção. Na medicina, pode indicar a atrofia de tecidos, motivada por esclerose. Na tecnologia, pode indicar a total inutilidade de um processo devido ao avanço de novas tecnologias. E na liderança, pode indicar o desastre organizacional motivado pelo uso de ferramentas ou estruturas que não conseguem mais atingir os resultados satisfatórios diante de um novo momento histórico.

A obsolescência é um fenômeno que aparece constantemente na história da humanidade. De tempos em tempos, processos vão sendo desgastados e entram em obsolescência. Até relacionamentos correm o mesmo risco se não considerarem demandas que alteram a convivência e vão, aos poucos, produzindo desgaste tal até o ponto da extinção. O que funcionava tão bem agora não funciona mais. Estruturas outrora de vanguarda agora estão na retaguarda. Linguagem, preferências, ideias e outros elementos sofrem o mesmo risco.

O que fazer diante disso? Alguns não fazem nada. Preferem acompanhar o desgaste e sofrer até que finalmente sejam obrigados a admitir a extinção de algo que lhes é importante. E esse processo não é fácil. Por vezes, vem acompanhado de tristeza, revolta e uma sensação de derrota enorme. É difícil admitir que algo caminha para a obsolescência, porém é mais difícil ter de encarar o imperativo de mudanças das quais discordamos, mas que são reais e trazem desgastes que não podem ser ignorados.

O pior de todo esse processo é que, por ser muito passional, acaba tornando algumas pessoas reféns. Reféns do passado e suas glórias, de terem participado de momentos de glória através de uma estrutura que funcionava tão bem. Ou de uma instituição que foi considerada a melhor nessa ou naquela área. O fato de termos participado de algo que deu certo no passado nos leva a momentos de grande saudosismo, quando nos queixamos por não conseguirmos mais os mesmos resultados fazendo as mesmas coisas que fazíamos. E, reféns desse sentimento, tentamos com todas as nossas forças manter uma estrutura, uma visão ou um modelo. E por mais que invistamos tempo, dinheiro e talento, somos vencidos pelo desgaste e nada podemos fazer a não ser acompanhar a obsolescência.

A única receita para não ficar refém desse processo é se libertar enquanto ainda é possível. A libertação vem acompanhada por novas ideias, novas possibilidades, novos investimentos, nova visão, nova filosofia de trabalho. Isso resulta em estruturas novas, modelos diferentes, implantações, reformulações e até mesmo modificações drásticas na forma de encarar a vida. Essa libertação cria expectativas, novos sentimentos, reinvenção de nossos próprios talentos, colocados agora a serviço de algo novo. Em momentos assim, parece ouvirmos a voz do profeta Isaías dizendo “crio novos céus e nova terra; e não haverá mais lembrança das coisas passadas” (Isaías 65.17).
Em vez de reféns do que se desgastou e extinguiu, tomemos uma atitude de avanço e total envolvimento com o que está por vir. Isso, sem dúvida, terá o poder de fazer-nos sentir novamente empolgados, animados e prontos a trabalhar com alegria. Ninguém é feliz sendo refém da obsolescência. Precisamos ser libertos pelas possibilidades que estão diante de nós.

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12+

Pessoas diferentes, reações diferentes

Cada ser humano é único. Então, por qual motivo queremos que as pessoas reajam de modo igual diante de uma mesma situação? Não seria uma grande incoerência? O natural seria esperarmos que, diante de uma mesma situação, pessoas tenham reações diferentes, manifestem sua visão pessoal da situação e se comportem de acordo com seu perfil emocional, sua educação e suas potencialidades. Mas o que acontece é que esperamos que as pessoas reajam de modo igual, e, mais especificamente, igual ao nosso. Se nós vencemos determinada situação com facilidade, esperamos que todos também a vençam com facilidade. E se foi difícil para nós alguma questão na vida, esperamos que todos enfrentem a mesma dificuldade. E, nessa expectativa que nutrimos dos outros, nos frustramos com as reações diferentes e chegamos até a criticá-las, sempre tomando como referência nossa própria reação.

Fernando Trías de Bes e seu colega Philip Kotler escreveram o livro A Bíblia da Inovação (Editora Leya, 2011). As primeiras páginas da obra falam exatamente sobre pessoas diferentes desempenhando papéis diferentes em contribuição para o sucesso de uma organização. Cada pessoa, com seu estilo, contribui para algo diferente, desde a criação até a execução. “A pessoa no lugar errado será prejuízo para o grupo” – comenta Kotler. E essa premissa servirá para várias organizações, afinal, a pessoa que não tem a condição mínima para realizar determinada tarefa, por certo, terá grande dificuldade para cumprir seu papel. E, aqui, temos, novamente, o mesmo princípio: a reação própria de cada um. Uma pessoa colocada em um lugar errado se esforçará muito para, pelo menos, cumprir a tarefa, ainda que sem qualquer brilhantismo. Já a pessoa certa poderá não apenas desenvolver a tarefa, mas, também, agregar rapidez, inovação e outros elementos, próprios de quem tem condição total para realizar a tarefa.

É necessário repensarmos nossas filosofias de locação de pessoas, promovendo mudanças, principalmente, no recrutamento. Perguntas certas devem ser feitas para elucidar, com a maior clareza possível, qual é o perfil da pessoa, onde ela poderá ter um desempenho maior e qual aptidão ela tem. Nesse processo, precisamos lembrar que, nas diferenças, temos condição de encontrar pessoas para todas as necessidades, até aquelas que nós mesmos não conseguimos atender. E, nessa mesma linha, devemos, também, lembrar que não deve haver espaço para disputas, mas sim para associações. Os diferentes não precisam se sentir maiores ou menores, mas sim diferentes. Eles devem se associar, trabalhar em conjunto, atender as demandas de acordo com seu potencial e, enfim, atingir objetivos comuns, coletivos, maiores.

Esperar por diferentes reações é louvável. Aproveitá-las é mais louvável ainda. Precisamos descobrir a beleza das diferenças e usá-las a nosso favor. Reaja de acordo com seu perfil e permita que o outro reaja de acordo com o perfil dele. Em respeito, aprenderemos que cada um, com sua diferença, pode nos ajudar e suprir nossas próprias debilidades.

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ACREDITE!

(por Guilherme Gimenez)

“Nada de esplêndido jamais foi realizado a não ser por aqueles que ousaram acreditar que algo dentro deles era superior às circunstâncias”. (Bruce Barton)

Líderes precisam de uma dose extra de coragem se desejarem alcançar grandes objetivos. Não lhes bastará a racionalidade, os números e os prognósticos. Por vezes, esses elementos são tão negativos que podem até impedir o processo criativo e estagnar qualquer possibilidade de mudança. Nesses casos, somente a coragem é capaz de produzir o ambiente adequado para que algo diferente aconteça e uma situação aparentemente sem solução seja resolvida. Coragem! Essa é a palavra do dia para os líderes, onde quer que estejam.

Há três palavras que combinam muito bem com coragem: ousadia, fé e autoconfiança.

Ousadia é a postura de enfrentamento diante do novo, do difícil e do improvável. Ousar é olhar para uma situação e enfrentá-la, por mais terrível e assustadora que seja. Líderes ousados levam seus liderados a uma condição de coragem, deixando de lado receios e abraçando as possibilidades que estão à frente, ainda que escondidas debaixo de um contexto de grandes lutas.

é o gesto de confiança nos milagres que podem acontecer. É a postura de enfrentar o impossível. A fé supera a ousadia porque está lidando com elementos que não podem ser mensurados. A fé extrapola a religiosidade e entra no campo de uma experiência com Deus que leva alguém a assumir riscos que nenhum técnico, assessor ou conselheiro concordaria. A fé, portanto, não pode ser medida por qualquer outra pessoa senão pelo próprio líder.

Autoconfiança é a condição emocional e espiritual que leva o líder a colocar sua ousadia ou fé – ou os dois – em ação. O líder autoconfiante diz: “Vamos. Eu acredito que conseguiremos”. Já o líder que não tem autoconfiança se enche de uma série de questionamentos e dúvidas, e acaba ficando paralisado diante dos desafios. A autoconfiança é tão importante que liderados serão motivados e incentivados de maneira incrível quando perceberem que seu líder acredita que é possível conquistar e ultrapassar os desafios.

Diante dessas três palavras – ousadia, fé e autoconfiança – só nos resta desafiar os líderes a terem coragem e acreditarem que está em suas mãos a vitória ou a derrota, a conquista ou o abandono e as possibilidades ou o impossível. Só há uma saída para você, líder: “Acredite”. Se você não acreditar, nada acontecerá. Mas, se você crer e encarar os desafios com coragem, muita coisa acontecerá e, por certo, muitas pessoas serão impactadas por sua fé e incentivo.

Enquanto muitos olham para as circunstâncias e desistem, os verdadeiros líderes seguem em frente, ousados, corajosos e cheios de fé.
Sejamos esses líderes!

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