“Eu quero mais” – Essa é a frase que define bem o indivíduo insatisfeito. Não importa o que ou quanto ele tenha, ainda assim, ele quer mais. É como se houvesse um vazio ou um buraco em sua existência, por onde sempre escapa algo e, por isso, é necessário, continuamente, preencher, sempre buscando por mais. A frase vale para valores materiais, sensações ou, dependendo do caso, até relacionamentos interpessoais. O rico quer ficar mais rico. O aventureiro quer mais aventuras. O amante quer mais relacionamentos, e por aí vai. O insatisfeito está continuamente em busca de algo ou alguém.
Um exemplo nítido disso está em uma pesquisa realizada pela Escola de Negócios da Universidade de Harvard e divulgada pela BBC News (01/01/2018. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-42512066#). O pesquisador responsável pelo estudo, Grant Donelly, entrevistou mais de 4000 milionários do mundo e concluiu que para “um quarto dos milionários entrevistados, para ser ‘feliz’, precisaria que sua riqueza aumentasse em 1.000%.” A que podemos atribuir essa necessidade de ter mais? Alguns diriam ambição. Eu prefiro chamar de insatisfação. A ambição pode levá-lo a querer conquistar mais, porém apenas a insatisfação o faz ir em busca da felicidade mensurada por aquisição. O princípio dessa busca por felicidade através do ter mais serve também para aquele que busca emoções maiores, como o praticante de esportes radicais. De vez em quando, vemos um desses morrer em suas aventuras porque estava tentando realizar algo ainda mais difícil, que lhe desse – como eles mesmos dizem – mais adrenalina. E, por mais estranho que possa parecer, quantos casamentos não foram rompidos porque um dos cônjuges também foi atrás de mais relacionamentos na tentativa de ser mais feliz.

A grande questão que incomoda nesse processo de insatisfação é que a sensação de adquirir não corresponde à realidade. O milionário precisará, realmente, de mais dinheiro para ser feliz? Quantos deles, já nos últimos anos de vida, ainda buscam por mais dinheiro, ainda que saibam que sequer conseguirão gastá-lo. E o perigo da morte que o aventureiro corre diante de um desafio que lhe produza ainda mais emoção? E o prejuízo a uma família inteira, em função de uma aventura extraconjugal justificada pelo amor? A realidade fica contrastada por essa busca desenfreada pelo “mais” que, muitas vezes, acaba se transformando em perda, afinal, não são poucas as histórias de ricos que encerram sua vida gravemente enfermos, de aventureiros que passam seus últimos anos de vida sobre uma cama após um acidente ou daqueles que, em busca de romances, encerram seus dias sozinhos.

Um conselho interessante, extraído da Bíblia, pode nos ajudar a lidar com a insatisfação: “Quem ama o dinheiro nunca terá o suficiente. Quem ama a riqueza nunca se satisfará com o que ganha. Não faz sentido viver desse modo!” (Eclesiastes 5.10). Em outras palavras, para lidar com a insatisfação, é necessária uma dose de realidade bem expressa pela frase “não faz sentido viver desse modo”. A insatisfação não faz sentido. A busca por mais e mais não faz sentido. E, se não faz sentido, logo, precisa ser dominada, isto é algo que todo ser humano pode aprender desde que tenha domínio sobre o ímpeto de obter mais e se lembre, constantemente, da finitude da vida e de que há um limite para tudo: para a riqueza, para a aventura, para o amor, e por aí vai. Contentamento é possível e desejável. Que tenhamos a sabedoria de desenvolvê-lo.

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