LIDERANÇA E ESPIRITUALIDADE

Guilherme Gimenez: Pastor, Professor, Teólogo e Maratonista

Categoria: Mensagem da semana (page 1 of 3)

MAIS CORAGEM DE ACERTAR DO QUE MEDO DE ERRAR

Por Guilherme Gimenez (prgimenez@prgimenez.net)

Um dos melhores livros que li nesse final de ano foi A Coragem Para Liderar de Brené Brown (Editora Best Seller. 2019). Poderia citar vários aspectos do livro, mas prefiro repetir uma frase que me marcou logo no início da leitura: “precisamos de líderes mais destemidos e culturas mais corajosas” (Página 24). Ao ler isso minha mente ferveu em ideias. Comecei a pensar nos desdobramentos de uma cultura de coragem e de um perfil de liderança destemido. E, entre uma ideia e outra, construí minha própria frase, como que um resumo das ideias que iam vindo: “Para ser um líder destemido eu preciso incentivar uma cultura nova onde tentativa e erro sejam permitidos a partir de mim mesmo”. Para mim a coragem de liderar esbarra exatamente nisso: tentativa e erro. Confesso que muitas vezes eu desisti de algum projeto por medo de tentar e errar. Aliás, o medo de errar sempre foi um entrave para mim, talvez porque na escola antiga de administração fui advertido que um líder não pode errar. Que ao errar um líder perde a credibilidade. Que um pequeno erro pode inviabilizar uma carreira toda. Realmente esse foi um pensamento que dominou uma geração de líderes. E, pensando dessa forma, muitas tentativas foram deixadas de lado porque a possibilidade do erro era grande…, mas a do acerto também. Com medo de errar não tentávamos o acerto.

              Já tem um tempo que mudei radicalmente meu pensamento sobre tentativa e erro. Na verdade, comecei a tentar mais, e com isso errei mais também, mas também acertei mais. A tentativa se tornou para mim uma representação corajosa de quem deseja acertar mais do que tem medo de fracassar. E é exatamente essa a cultura que creio devemos incentivar em nossas comunidades, organizações e equipes. O medo do erro deve ser menor do que a coragem do acerto. Quanto mais temor de errar, menos tentativas. Quanto mais coragem de acertar, mais tentativas. Uma cultura que aceita tentativas deverá criar um ambiente onde não haja um massacre psicológico sobre quem tentou e errou, mas sim um incentivo e avaliação honesta que leve as pessoas a aprenderem com seus erros e tentarem de novo.  

              Ser um líder destemido é ter a coragem de tentar querendo muito acertar. É ter a coragem de perseguir o acerto, ainda que ele demande uma série de tentativas e algumas delas que resultarão em fracasso. É ter a coragem de avaliar, crescer nos erros e finalmente chegar até aos acertos. Que a coragem do acerto nos faça seguir em frente mesmo quando o fracasso chegar e que nele tenhamos apenas a reflexão necessária para corrigir o que for necessário e tentar de novo até o acerto!

Guilherme de Amorim Avilla Gimenez – 14/11/2019

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Mudanças Rápidas X Ações demoradas

Por Guilherme Gimenez

Que o mundo está mudando, isso todo mundo já percebeu. Reclamar ou questionar tais mudanças não levará a nada pois não se pode interromper esse processo que vai ganhando mais velocidade à medida que tecnologias novas vão praticamente nos obrigando a mudar e com rapidez. O questionamento mais próprio nesse momento, a meu ver, é o quanto estamos demorando para entender, absorver e finalmente agir em relação a essas mudanças. Entender é o primeiro elemento desse processo. Sem entender será difícil agir. A possibilidade de uma ação errada por falta de entendimento é grande. Mas ao mesmo tempo, se demora-se demais para entender a mudança, a possibilidade de erro também será grande, pois uma ação retardada pode chegar quando outras mudanças estão acontecendo e precisam de diferentes interações. O processo de entendimento deve ser profundo, mas também rápido. Possivelmente em uma época de tantas mudanças nunca nos sentiremos seguros o suficiente para agir, então é melhor determinar um tempo máximo para estudar o assunto e tomar as decisões cabíveis. Absorver é o processo que se segue ao entendimento. É mais ou menos “cair na real”. É perceber que a mudança tem a ver conosco e que precisamos fazer algo. Por vezes já entendemos a mudança, mas demoramos a agir porque ficamos nos perguntando se de fato devemos agir. Por vezes nem acreditamos que tal mudança nos afetará. Absorver é o processo de, tendo entendido a mudança, perceber o quanto ela mexerá conosco, nos impactará e, portanto, merece nossa atenção rápida. Agir é o último passo a ser dado. É a última barreira a ser rompida. Tendo entendido e absorvido a mudança agora é fazer o que precisa ser feito. É tomar a decisão e trabalhar. É implementar novas rotinas, trilhar caminhos novos até então e ter a coragem de enfrentar o que for preciso.

Algumas de nossas ações aparentemente serão tomadas até de modo precipitado. Mas será uma impressão com base na velocidade que as mudanças tinham há algumas décadas. Mudanças mais rápidas exigem ações também rápidas, então não se prenda aos paradigmas da noção de tempo do passado, encare o novo paradigma da rapidez e faça suas leituras do tempo a partir delas. Tenho certeza de que você terá grandes experiências no tempo e começará a controlar sua ansiedade e ao mesmo tempo o medo de agir rápido demais. Que em meio a todas essas mudanças não nos tornemos retaguarda pela demora de agir mas sempre vanguarda tomando as decisões na hora certa.

Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

prgimenez@prgimenez.net

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SUICÍDIO DE PASTORES E POSICIONAMENTO DA IGREJA

Por Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

Acabo de ler a notícia do suicídio do pastor Lisandro Canes da Igreja Nova Vida em Rio Grande (RS) na última segunda-feira, 23 de setembro de 2019. Já perdi a conta de quantos colegas pastores se suicidaram nesses últimos anos. Esse caso, em especial, me chamou muito a atenção. Lisandro há poucos dias atrás comentava em seu Facebook sobre o suicídio de um outro pastor, Jarrid Wilson, ocorrido alguns dias antes. Em seu comentário ele declarou: “Eu admito que nunca em toda a minha vida eu fiz algo tão esgotante e cansativo como pastorear. Nenhum trabalho ou responsabilidade consumiu mais as minhas energias e minha saúde do que liderar uma Igreja. Como pastor posso dizer que a Igreja precisa urgentemente se preocupar com o descanso e a saúde dos seus pastores.” Ao encerrar seu comentário ele faz um apelo: “Querido cristão, não abra mão de um tratamento digno com os seus pastores. Somos iguaizinhos a vocês. Se enfiarem uma faca em nós, sangraremos. Se nos machucarem sentiremos dor. Antes de pensar no pastor como um super-homem, lembre-se que existe um ser humano a Imagem de Deus atrás do púlpito. Um ser humano igualzinho a você. Que Jesus levante uma Igreja onde cuidar dos pastores não é opção, mas sim fundamental”. Tais palavras para mim foram um grito de socorro que ecoou pelas redes sociais. O pastor Lisandro sucumbiu ao esgotamento e cansaço da função pastoral. Jarrid Wilson, dias antes, também. Vários outros pastores, sofrendo as mesmas pressões, acabaram por tomar a drástica decisão de tirarem a própria vida. Por mais incômodo que isso seja para nós todos, é uma realidade que precisa ser encarada de frente. Por sua gravidade, ela tem motivado estudos, pesquisas e debates sobre a saúde mental e emocional dos pastores.

O Instituto FASICLD (The Francis A. Schaeffer Institute of Church Leadership Development), dos Estados Unidos, tem liderado pesquisas acerca da saúde mental de líderes religiosos nos Estados Unidos. Alguns dados colhidos em pesquisa realizada diretamente com os pastores são alarmantes: 70% dos pastores lutam constantemente com a depressão, e 71% estão “esgotados” física e mentalmente. Ainda de acordo com esta pesquisa, 80% dos pastores acreditam que o ministério pastoral afeta negativamente suas famílias e 70% dizem não ter um amigo próximo (Portal Raízes. Setembro de 2019).

No documento “STATISTICS ON PASTORS: 2016 UPDATE” produzido pelo mesmo instituto outros dados revelam o estado emocional em que líderes religiosos se encontravam em 2016: “35% dos pastores lutam constantemente contra a depressão, 43% se dizem estressados, 34% sentem-se “sempre desencorajados”, 24% acham que seu trabalho tem efeito negativo na família e 58% dizem não ter amigos bons e verdadeiros. 50% lidam com algum problema de saúde e mais da metade (52%) sentem-se incapazes de satisfazer as expectativas da igreja. Esses são dados de 2016 e aparentemente a situação não melhorou. Pelo contrário, no mundo inteiro os casos de depressão aumentaram e isso por certo atingiu também os pastores e líderes religiosos.

Não temos pesquisas brasileiras sobre a situação dos pastores, mas ouso dizer que os pastores brasileiros não estão em situação melhor que a dos norte-americanos. A situação exposta acima tem gerado pela primeira vez a discussão desse tema entre os próprios pastores e nas igrejas. Palestras tem sido feitas, programas de aconselhamento oferecidos e há uma preocupação das diferentes denominações evangélicas e suas respectivas organizações – Ordens de pastores – em dialogar e mostrar preocupação pela saúde mental e emocional dos pastores. Essa é a primeira resposta e digna de reconhecimento e elogio. Mas creio que não seja suficiente. De algum modo as igrejas precisam ser alertadas sobre o cuidado para com os pastores. É lá na igreja local onde está o problema. É lá que sentimentos como os do Pastor Lisandro Canes afloram e geram a dor que leva um defensor da vida a tirar a sua própria.

O ser humano chamado ‘pastor’ precisa de cuidado. Ao lidar com as mais variadas situações e atender os mais diferentes problemas, seu desgaste emocional é muito grande e por vezes nem ele percebe o quanto está enfermo de suas emoções e o quanto precisa de ajuda. Sabemos que esse processo de ajudar não é simples e inclusive exige que o pastor queira ser ajudado, o que nem sempre acontece. Mas, existem algumas boas práticas que ajudam indiretamente e promovem o bem-estar emocional dos pastores. Tais práticas não exigem profissionalismo e sim amor, preocupação e atenção por parte da igreja. Talvez esteja na igreja a receita de saúde para os pastores.

Proponho algumas ações que líderes de nossas igrejas podem desenvolver. Não é uma lista grande, poucos itens já são importantes e atuarão como remédio na vida do pastor e outros ministros dedicados integralmente ao ministério. Tais ações são propostas a partir da observação pessoal, de conversa com pastores e da minha própria pesquisa veiculada no livro de minha autoria A Crise no Ministério Pastoral: Alternativas de diálogo entre a vocação e as crises ministeriais (Credo Ediciones. 2019).

1. Escolha de um representante da igreja que acompanhe o pastor

Pastores não precisam de juízes ou críticos oficiais, eles já os têm em abundância. Pastores precisam de amigos, parceiros, pessoas com quem possam se abrir e compartilhar suas dores e até mesmo necessidades. Ainda que esse seja um movimento espontâneo, de amizade e afinidade, proponho que a igreja tenha alguém que constantemente converse com o pastor, que se responsabilize por verificar como ele está e quais são as necessidades que porventura lhe preocupem. É difícil para os pastores se exporem e pedirem ajuda, ou então compartilharem questões mais íntimas, por isso alguém que tenha a iniciativa ajudará bastante nesse processo. Uma pessoa discreta, amiga, que entenda a humanidade do pastor e tenha um olhar cuidadoso será uma bênção na vida do pastor e família, podendo se antecipar às necessidades ou condição emocional que indiquem a urgência de ajuda e ação da igreja para com ele.

2. Valorização pública do pastor

Pastores não precisam e não querem fãs e nem bajulação. Mas, isso não significa que não precisem e queiram valorização. O mundo corporativo tem investido cada vez mais na valorização de seus funcionários por perceber que o reforço emocional positivo produz efeitos fantásticos em produtividade e compromisso. A valorização do pastor traz efeitos semelhantes. Por sua posição pública, a valorização deve igualmente ser pública. Uma palavra de encorajamento, um mimo, um reconhecimento que custe caro à igreja darão ao pastor a sensação de que ele é importante, e que vale a pena seu desgaste em favor do Reino e daquelas pessoas a quem ministra. Infelizmente algumas igrejas foram doutrinadas a não valorizarem seus pastores para que não se tornassem “vaidosos.” Se um ou outro pastor se torna vaidoso, isso é uma fraqueza emocional daquele pastor em particular. Pastores precisam do reforço emocional positivo para que se sintam reconhecidos, e isso não é pecado, antes, uma demonstração de amor, que tem efeitos não apenas na vida do pastor, mas de toda a sua família. Datas comemorativas, participação em eventos de valor não apenas teológico, mas também lúdico, podem gerar um entusiasmo que se transformará em benefícios para a própria igreja local.

3. Oferecer Segurança ao Pastor

Na pirâmide de hierarquia das necessidades de Maslow encontramos na base as necessidades fisiológicas. Logo em seguida temos a necessidade de segurança, e aqui algumas igrejas já falham por não atentarem para pequenos detalhes que fazem toda a diferença. Ninguém – nem mesmo o pastor – trabalha com alegria e entusiasmo se sentir-se inseguro. E muitas igrejas sem perceber criam um ambiente de insegurança constante ao pastor – e até para sua família – quando por meio de exigências descabidas e críticas excessivas fazem o pastor cobrar-se constantemente e encher-se de culpa por tudo, levando-o a pensar se na próxima assembleia ou reunião da liderança será demitido. Alguns pequenos gestos podem dar ao pastor muita segurança no desempenho do ministério. Oferecer um feedback amoroso e respeitoso, poupar o pastor de desgastes desnecessários, trabalhar lado a lado em parceria e outras pequenas ações dão segurança. E aqui vale a pena lembrar das condições de trabalho. A igreja deve ser educada a dar o melhor para o pastor e não o pior. Honrar o pastor nesse sentido é valorizar o ministério pastoral e o homem pastor.

4. Reconhecer a humanidade do pastor – Desconstruir o mito e construir uma referência ministerial

Pastores não são anjos: são pessoas. Eles acertam e erram. São falhos, mas também realizam coisas incríveis. São como qualquer outro ser humano. Sua chamada e vocação não os transforma em seres “ultra-humanos” ou “sub-humanos.” Quando a igreja reconhece a humanidade do pastor a partir de seus líderes, ela pode finalmente desconstruir o mito pastoral – que não é ensinado na Bíblia – e construir uma referência ministerial, destacando a figura do servo dedicado e que ouve a voz de Deus, servindo-o com alegria. Reconhecer essa humanidade esbarrará em atitudes práticas como entender os limites de um ser humano no trabalho. A liderança pode – e deve – ensinar a igreja que pastores também precisam de horário para suas rotinas pessoais e de sua família. É bem verdade que parte da culpa do mito pastoral é dos próprios pastores, que não tiveram a coragem de admitir sua humanidade. Quiseram ser mais fortes do que o próprio Jesus, que se fez homem e abraçou a humanidade em toda sua realidade. Esse é um trabalho lento, depende do pastor e liderança, mas pode ser construído em um ambiente de amor e graça.

5. Construção de um ambiente de graça

Não é utopia desejar um ambiente de graça entre pastor, liderança e igreja. Isso é o ideal e o que se espera entre irmãos. Um ambiente de amizade, companheirismo, amor cristão e parceria. Pastor e liderança não são adversários, estão do mesmo lado e por isso devem construir um ambiente favorável ao trabalho em conjunto. O que se vê em muitas igrejas é um ambiente hostil, marcado por reuniões tensas e discussões recheadas de acusações. Há casos em que pastores vão para assembleias de igreja ou reuniões de liderança em um estado de total estresse porque sabem que o ambiente será de “guerra santa” e não graça. Em um ambiente de graça é possível conversar sobre tudo, fazer avaliações profundas sobre qualquer assunto e tomar decisões dificílimas. E isso sem ferir, sem acusar, sem maltratar o outro. Há casos e mais casos de pastores que foram agredidos verbalmente e sofreram bullying (isso mesmo, essa é a palavra correta) por parte de líderes e irmãos da igreja. A liderança não pode permitir o massacre emocional do pastor e sua família e muito menos promover isso. Um ambiente de graça dá ao pastor e igreja a estrutura necessária para trabalharem de maneira sinérgica, entrosada e frutífera.

6. Tratar as doenças emocionais sem preconceito

Se o pastor apresentar sinais de depressão, então é momento de a liderança agir com rapidez, auxiliando-o na escolha de um profissional adequado e oferecendo ajuda, companheirismo e compreensão. Vários pastores esconderam a depressão por muito tempo e quando foram se tratar já era tarde demais. A liderança da igreja não deve esconder a enfermidade do pastor nem tão pouco expor as fragilidades do pastor em público. Um período de licença pode ajudar nesse processo. E absorver tarefas pastorais também ameniza o peso desse momento. Tratando-se adequadamente, o pastor experimentará cura e poderá novamente seguir em seus desafios ministeriais.

Em pleno “Setembro Amarelo”, mês de conscientização sobre o suicídio, a igreja é desafiada a considerar a realidade de vida de seus pastores, enxergando-os como seres humanos e oferecendo aquilo que qualquer ser humano precisa: o companheirismo de outro ser humano. E, em nosso ambiente de igreja, somemos a isso a verdadeira comunhão cristã, o verdadeiro amor e “a paz de Deus, para a qual também fomos chamados em um corpo” (Colossenses 3:15).

De um pastor preocupado com seus colegas e consciente de sua humanidade,

Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

prgimenez@prgimenez.net

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DESGASTES DESNECESSÁRIOS

A cena era grotesca. Em plena praça de alimentação de um grande shopping da cidade de São Paulo marido e mulher discutiam. Quem estava longe podia ouvir as palavras ofensivas e os palavrões que eram ditos sem qualquer constrangimento. Após a intervenção de seguranças eles foram se acalmando até começarem a falar baixo. Foi nesse momento que eu cheguei por perto, os vi grandemente abalados e resolvi intervir. Após alguns minutos de conversa uma frase – dita pela esposa – chamou muito a minha atenção. Ela declarou: “foi tão desgastante tudo isso…” Eu concordei com ela em silêncio. Concluí o pensamento com outra palavra: desnecessário. Tudo aquilo foi um “desgaste desnecessário.” Até hoje não descobri o motivo real do início da briga, e aí está mais uma prova de que foi um desgaste desnecessário.

Ao pesquisar a palavra “desgaste” descobri que sua origem é o latim vastare que significa ‘tornar vazio ou desértico.’ Na prática seria um processo de “desvalorização ou desconstrução.” Há muitas práticas desgastantes, desde o uso incorreto de uma palavra até uma discussão como a daquele casal. Nos relacionamentos vemos muitas práticas desgastantes: uma palavra dura demais, um olhar rude, uma piada de mau gosto, uma crítica excessiva, um comentário maldoso… em todos os casos há perdas, pois a confiança ou até mesmo o carinho se dilui diante de tais práticas que vão desvalorizando o relacionamento e chegam mesmo a desconstruir uma amizade e em alguns casos até um casamento. O triste é saber que esse tipo de desgaste é totalmente desnecessário pois se alguém quer resolver um problema deve utilizar uma prática que construa e não desconstrua. Mas, algumas pessoas realmente acham que desgastes podem produzir algo positivo e até resolver um problema. E talvez seja por isso que cenas como a do shopping se repetem em ambientes de trabalho, famílias, ambientes públicos e até nos lugares mais inusitados. Confesso que pensei aqui em uma briga que presenciei em um velório, quando um vivo gritava com o morto, tentando de alguma forma ofendê-lo. Totalmente desnecessário, não é mesmo?

Por que nos submetemos ou submetemos os outros a desconfortos, sejam eles quais forem? Deixando de lado o aspecto emocional, penso que muitas vezes nos falha a visão estratégica. E até mesmo a consciência do ato que faremos. Será que dizer o que queremos dizer ou nos comportar como desejamos construirá algo? Contribuiremos para uma mudança positiva? Ou apenas colocaremos “para fora” o que está entalado na garganta? Podemos até promover algum desconforto, desde que ele seja necessário, quando de fato com consciência e estratégia estaremos descontruindo algo que talvez esteja errado ou que não faz parte de nossa visão para o futuro. A grande pergunta a ser feita sempre será: esse desgaste é necessário ou desnecessário? Sendo desnecessário a alternativa mais prudente é desistir de fazê-lo e investir em alguma estratégia mais eficaz para resolver o problema. Falamos aqui de algo que seja de fato necessário para alcançar o que pretendemos.

Um detalhe: para algumas pessoas todos os desgastes são necessários. Se você é uma dessas, então os conselhos acima não servem! Mas se você tem o discernimento necessário para entender os limites entre o construir e o destruir, então, faça sua análise da situação a partir do desejo de construir. Com certeza, após essa análise, você evitará alguns desgastes por perceber que eles são totalmente desnecessários.

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A Quem Você Está Ouvindo?

Por Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

Em um mesmo dia podemos ouvir várias opiniões diferentes a respeito de um mesmo assunto. Pessoas dizem que nossa ideia dará certo enquanto outras dizem que é melhor desistir pois o fracasso é certo. Alguns dirão que estamos no caminho certo enquanto outros nos incentivarão a desistir. E diante de tantas opiniões contraditórias, a grande questão é: a quem ouviremos? Quem está certo? Já que precisaremos escolher as pessoas a quem ouviremos, que tal estabelecer alguns critérios que poderão nos ajudar a ouvir as pessoas certas? O primeiro critério a ser analisado é se a pessoa a quem ouvimos tem experiência no tipo de assunto que estão opinando. Se não tem experiência, então, talvez não tenham noção de todos os elementos que precisam ser ponderados em relação ao assunto. Analise o perfil da pessoa: ela é só razão ou só emoção? Pessoas polarizadas entre mente ou coração não são completas em sua análise. Busque por pessoas que transitem entre a razão e emoção e que ofereçam uma posição ponderada sobre o assunto. Aproveite e descubra se a pessoa tem algum interesse no assunto que está sendo analisado. E, se tem, qual é o interesse? Sua derrota pode significar a vitória dela? Esse tipo de interesse, por exemplo, a inviabiliza a ajudar você. Tente também analisar se a pessoa tem uma argumentação coerente, forte e abrangente.  Se ela apenas ‘acha’ e não tem qualquer força de argumento, então ouvi-la não é imprescindível, afinal, todo mundo tem seus ‘achismos.’ Força de argumento é sempre importante para quem deseja ser ouvido. Verifique também a maturidade da pessoa em outras áreas, não necessariamente ligadas ao assunto. A pessoa madura demonstra equilíbrio na vida. Isso a qualifica para emitir opiniões mais sólidas sobre diversos assuntos. É importante também analisar o quanto a pessoa está atualizada na área em que seu conselho é exigido. Ele acompanha o desenvolvimento de tal assunto no decorrer dos anos? Talvez a visão que ela tenha seja de algumas décadas atrás, o que imediatamente transforma sua opinião em obsoleta. Se ela está atualizada, então poderá opinar hoje de maneira até diferente do modo como opinou há tempos atrás.

Ouvir a pessoa certa é nosso interesse. Então, estabelecer critérios para definir quem é essa – ou essas – pessoa é muito importante. Não se apresse em ouvir e muito menos em fazer o que as pessoas dizem ser o melhor. Primeiro analise a condição que a pessoa tem para ouvir e aí, sendo ela uma pessoa cuja opinião vale a pena ser ouvida, então dedique tempo, ouça-a adequadamente, e tome sua decisão em seguir ou não os conselhos dados. Lembre-se: “Não havendo sábios conselhos, o povo cai, mas na multidão de conselhos há segurança”. Conselhos sábios é o que precisamos, vários deles, mas todos sábios.

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Os Novos Sistemáticos

Por Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

              Por definição, chamamos de “sistemática” a pessoa que tem uma estrutura de pensamento ligada a um sistema, ou que organiza suas ideias a partir de um sistema, sempre estabelecendo regras que organizam sua linha de pensamento. Por vezes essas pessoas são também chamadas de metódicas ou organizadas – o que também as define – e ironicamente, ao serem chamadas de sistemáticas, há uma crítica a seu excesso natural de regras. Há muitas vantagens nas pessoas “sistemáticas” e muitos processos só são realizados com sua ajuda que vem quase sempre pelo viés da organização. Por outro lado, há uma desvantagem que aumenta bastante nesses tempos chamados pós-modernos: elas tem certa dificuldade com a rapidez da mudança. Se no passado vivíamos debaixo de uma regra ou padrão por algumas décadas, hoje isso parece impossível. As mudanças são enormes e vem com uma rapidez de meses ou no máximo poucos anos. E aí as pessoas cujo pensamento está organizado ao redor de um padrão fixo, acabam sendo prejudicadas, pois a migração entre um sistema e outro, um padrão e outro e um modelo e outro acaba fazendo-as se perderem em seus pensamentos, e se sentirem desestruturadas ou incapazes de agir sob essa tamanha pressão da rapidez da mudança. Sobre isso Richard P. Rumelt pondera que precisamos de uma nova “sistematização” ou uma nova “forma de planejamento” (Good Strategy/Bad Strategy: The Difference and Why It Matters. Crown Business, 2011). E o que seria isso? Uma capacidade de rapidamente adaptar-se a novos modelos, migrando entre uma estrutura e outra sempre que necessário. Assim, teríamos um novo tipo de pessoa sistemática, que continuaria organizando suas ideias ao redor de um sistema, mas teria a capacidade de absorver a nova realidade com a rapidez que a pós-modernidade exige. Tal pessoa nem seria vista como sistemática, pois não estaria “engessada” em seu discurso ou práxis. Ela contribuiria com sua capacidade de estruturar-se e seguir regras e ao mesmo tempo estaria construindo as novas regras a partir da realidade que esse tempo lhe impõe. Seria quase uma líder ideal, qualificada para o planejamento e ao mesmo tempo aberta para a inovação. Mas, como Richard P. Rumelt argumenta, ser um líder assim é dificílimo. Nossa tendência em geral é polarizada, ou somos sistemáticos e lentos para mudar ou então somos inovadores e praticamente não temos sistemática alguma em nosso planejamento (se é que conseguimos ter um.) Precisamos dessa nova categoria, os chamados “novos sistemáticos” que transitam bem entre o novo e rápido e a regra e organização. Para tanto, será necessário não apenas dedicação ou estudo, mas muito mais uma mente aberta para reconstruir todo o sistema tradicional de pensamento. Também igualmente necessário a rapidez para entender, analisar e aplicar. E se fizermos isso a partir de nossa capacidade de nos manter posicionados a partir de modelos, padrões e estruturas – ainda que novas e passageiras – então teremos esse líder preparado para os planejamentos do século XXI.

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QUANDO O PEQUENO SE TORNA GRANDE DEMAIS

“Não nos deixemos perturbar por ninharias, que devemos desprezar e esquecer. Lembre-se: a vida é muito curta para sermos mesquinhos”. (Dale Carnegie)

“Ele passou por mim e não me cumprimentou”

“Ela não retornou aquela ligação”

“Eles não me deram atenção naquele episódio”

Por trás de cada frase um pequeno gesto e um grande sentimento. Grandes mágoas são originadas muitas vezes por pequenas atitudes. Quem faz – ou deixa de fazer – às vezes nem percebe o quanto o outro ficou triste, sentido, magoado ou furioso. E às vezes nem ficará sabendo que o motivo do afastamento do outro foi exatamente aquela pequena coisa. É claro que todos nós precisamos estar atentos aos pequenos detalhes no sentido de não querermos magoar o outro. Mas, também precisamos ser maduros para não transformar a pequena coisa em algo muito maior do que de fato é. As coisas nem sempre são grandes, mas se tornam grandes: tudo depende de como a recebemos e do investimento de sentimentos que damos a elas.

Pequenas coisas são capazes de nos perturbar, nos inquietar e até nos paralisar. Lembramos de algo pequeno com uma grandeza tal que somos capazes de viver amargurados por um longo período. E o pior é que a atenção que damos às pequenas coisas por vezes passa despercebida por aquele que cometeu o pequeno gesto, e nem sabe o quanto aquilo nos perturbou. Deixamos de viver a vida em sua grandeza porque elegemos algo pequeno para interromper nossos sonhos e planos de futuro.

O pequeno gesto destrutivo deveria ser amenizado e esquecido e não fortalecido e aumentado. Mas nossos sentimentos não são automáticos e nem fáceis de lidar, não é mesmo? Não queremos que uma pequena coisa nos destrua, mas ficamos tão chateados com aquilo que permitimos que tal fato aconteça. O que fazer para não permitir que o pequeno se torne grande? A resposta não é pronta, cada um deverá usar sua estratégia pessoal, mas em todos os casos precisaremos aprender a não valorizar tanto o pequeno mal, mantendo-nos firmes em nossos sonhos e planos, e dando a eles a grandeza que fará o pequeno mal praticamente desaparecer.

Não aumente o pequeno mal. Não potencialize o pequeno gesto desagradável. Não eleja o pequeno problema como o maior evento dos últimos tempos. “Invista seus sentimentos no que é verdadeiro, nobre e direito. Pense em coisas que sejam puras e agradáveis e detenha-se nas coisas excelentes” (Filipenses 4:8 – Biblia Viva).

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ATAQUES DE ÓDIO

Por Guilherme Gimenez

“Equilíbrio emocional deve ser um hábito! Devemos exercitá-lo sempre. Uma boa atitude para evitar o descontrole e a discussão desenfreada é atacar apenas o problema, e não as pessoas envolvidas nele” (Vargas, Rodrigo. 52 Bons Hábitos de Gestão, Liderança e Relações Humanas . Edição do Autor. Edição do Kindle.)

Já vi muitas pessoas sendo atacadas verbalmente e até fisicamente. Uma das cenas que não sai de minha cabeça aconteceu na Marginal do Rio Tietê. Era uma sexta-feira, trânsito caótico, e bem na minha frente um homem saiu de seu automóvel com um porrete na mão. Ele se dirigia ao carro da frente. Muitas pessoas, inclusive eu, saímos do carro para tentar impedir o que para nós estava evidente: uma briga de trânsito estava prestes a começar. Mas, parar uma pessoa com um porrete na mão não é coisa muito fácil. Não tivemos êxito nas tentativas de acalmar o homem que com aquele porrete começou a quebrar os vidros do carro da frente, amassar a lataria e ameaçar o motorista que de cabeça baixa, com as portas trancadas, não ousou olhar para o agressor. Os palavrões ditos pelo homem foram tão violentos quanto suas ações que duraram alguns minutos que mais pareciam horas. Ele voltou para seu carro, saiu buzinando, e desapareceu logo mais à frente. Fomos socorrer o motorista agredido que em choque dizia que não entendia o que havia acontecido. “Eu não tinha como dar passagem para ele” – foi a frase que repetiu algumas vezes. Depois de tranquilizá-lo e ver que seu carro funcionava, apesar dos danos, eu e outros motoristas voltamos para nossos automóveis e seguimos viagem. Mas a imagem daquele ataque feroz nunca saiu de minha mente. Não apenas pela violência do ato, mas muito mais pelo descontrole daquele homem que despejou toda sua ira por estar preso no trânsito sobre outra pessoa que estava na mesma situação que ele. Pela televisão de vez em quando aparecem casos semelhantes. E outros, ainda que diferentes, revelam o mesmo desequilíbrio emocional. Pessoas vivenciando situações estressantes ou diante de um problema despejam sobre algum que está por perto toda sua ira, descontentamento, ódio e outros sentimentos destrutivos. E, o pior, é que de vez em quando alguém morre nas mãos de um descontrolado que não consegue administrar seus sentimentos.
Talvez a única solução para não realizarmos ataques dessa natureza é aprendermos a lidar com nossas frustrações e, mais do que isso, lembrarmos que o nosso foco sempre deverá ser o problema e não as pessoas eventualmente envolvidas nele. Ficar furioso com o trânsito é até compreensível. Despejar todo o ódio com isso sobre o motorista da frente é uma estupidez. E vale a pena lembrar que em alguns momentos não conseguiremos sequer manifestar nosso descontentamento pois ele não encontrará um culpado. Isso mesmo, algumas situações acontecem em decorrência de uma série de fatores, às vezes uma conjugação deles. Dessa forma a única alternativa que temos é nos controlarmos, exercitarmos o domínio próprio e resistirmos à vontade de atacar alguém para aliviar nosso sofrimento interno diante de situações que nos incomodam. Atacar para se sentir melhor não combina bem com inteligência, civilidade, boa educação, respeito ao próximo e outros elementos que por si só já nos desafiam a mantermos a calma e, se conseguirmos, manifestar nosso descontentamento da forma mais eficaz possível que com certeza não será com violência, seja física ou verbal. Equilíbrio emocional é a palavra-chave. Exercitemos sempre e viveremos bem melhor.

Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez
prgimenez@prgimenez.net
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ADAPTAÇÕES NECESSÁRIAS, FÁCEIS E DIFÍCEIS

Conversando com um amigo há algum tempo atrás ele me disse que não tomava mais refrigerante e não sentia falta alguma. Eu lhe respondi que também não tomava mais refrigerante há vários anos, mas, eu sentia falta. Não sempre, mas de vez em quando. Ele então me respondeu que chegaria o momento em que eu não sentiria mais falta também. E isso de fato ocorreu. Em dezembro de 2018 completei 4 anos sem beber refrigerante, não sinto nem um pouquinho de vontade de beber. É incrível como aquilo que começa como uma disciplina difícil depois de algum tempo se torna uma rotina. E sobre isso podemos analisar vários aspectos da vida. Nos disciplinamos para algo e daqui a algum tempo nos acostumamos de tal forma que não precisamos mais nos esforçar para fazer ou deixar de fazer. É claro que existem algumas coisas que fogem à regra, como substâncias viciantes ou comportamentos psicóticos, mas vamos nos ater apenas às coisas comuns da vida, partindo do exemplo do refrigerante. 

Em um ambiente de trabalho alguns comportamentos começam como um esforço dificílimo e demoramos semanas para incorpora-los a nossa rotina. Há os que demoram meses, pois são de alguma forma contrários à nossa natureza e forma de ver a vida. Há também os que não fazem parte de nosso conhecimento, precisamos estuda-los, compreende-los e isso leva tempo. E há também os que não aprovamos, por mais que estejam certos, mas não para nós. Preferiríamos outros comportamentos, outras ideias, outras estratégias. Então, para serem incorporados à nossa rotina, se tornam um desafio de disciplina, de aceitação e até de humildade: fazer o que não queremos fazer, mas temos que fazer. 

A disciplina leve ou dificílima gera adaptações. E essas depois de algum tempo se transformam em rotinas que fazemos sem perceber. Mas há um detalhe aqui: não nos acostumamos para sempre. Quantas e quantas vezes passaremos pelo processo de adaptação e em alguns casos antes de conclui-lo teremos que iniciar outros processos. Duas lições básicas aqui: A primeira é a dinâmica e diversidade da adaptação. Para algumas coisas mais fácil, para outras mais difícil. Em alguns momentos demorada e em outros rápida. A diversidade da adaptação deve ser respeitada em nós e nos outros. Cada um tem o seu tempo, e, portanto, um processo de adaptação. A segunda lição é a da constante mudança e constante necessidade de disciplina. É necessária alguma nova adaptação? Então iniciemos o processo, seja rápido ou demorado. Não cabe a nós rejeitarmos o novo desafio porque já nos acostumamos ao antigo. Ou reagirmos com má vontade só de imaginarmos o quanto será difícil passar por mais um processo de adaptação. Ou até mesmo julgarmos os que tem mais dificuldade que nós em algum processo de adaptação. Adaptações são necessárias, tanto as fáceis como as difíceis. Exigirão nossa disciplina. E ao mesmo tempo nossa conscientização de que tendo nos adaptado a algo ainda teremos que fazer novas adaptações e manter a disciplina em muitas outras situações que estarão ao nosso redor.

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Sentimentos de Época

Por Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

Acabo de saber que mais um jovem se suicidou aos 32 anos. Do meu círculo de convivência esse é o segundo em uma semana, número alarmante em minha opinião. Nos dois casos a causa provável foi a depressão. Fui ler a respeito e me deparei com um artigo interessante do psicanalista Eduardo Silva onde sem rodeios ele diz que a depressão está ligada à época, ao nosso tempo. Ele defende sua ideia mostrando alguns fatores vinculados ao tipo de sofrimento emocional em determinada geração. Diz ele que “hoje não sofremos como há cem anos, por exemplo, a realidade, os problemas e preocupações eram outras. Nesse momento em que alguns chamam de pós-modernidade, hipermodernidade, modernidade líquida etc., vivemos uma realidade que nos afeta a todos, mas de forma singular” (Site Gospel Mais. Acessado em 03 de junho de 2019). Acredito que de fato os sentimentos são afetados pela época em que vivemos. Se fosse resumir a principal marca de nossa época diria que é o egoísmo que aparece nas suas mais diversas formas como narcisismo, individualismo, orgulho, vaidade e por aí vai. A grande maioria dos sentimentos que acabam se transformando em depressão partem de pessoas que só pensam em si mesmas e quando sua autoimagem é de alguma forma afetada, elas não suportam a pressão e se não forem bem assessoradas podem realmente cometer atos que colocam em risco a própria vida. José Roberto Marques, articulista do Portal IBC, fala de uma geração fraca emocionalmente, que se abala facilmente e não consegue se manter firme diante de situações comuns dos relacionamentos humanos como uma opinião diferente ou crítica (Site do IBC Coaching. Acessado em 05 de junho de 2019). Percebemos isso com facilidade quando alguém perde o controle simplesmente porque sua ideia não foi reconhecida como “a melhor de todas” ou porque não recebeu um elogio suficiente forte, principalmente nas redes sociais. Aliás, alguns casos de suicídio estão associados diretamente ao Facebook, Twitter e Instagram. Ter a imagem de alguma forma negativada pode se transformar em um sofrimento capaz de levar alguém à depressão. Se for um sentimento de época, irá passar. Porém não sabemos quando. E até que passe precisamos mais do que nunca investir em fortalecimento emocional de nossos jovens e adolescentes – sem esquecer dos adultos que acabam vivenciando os mesmos sentimentos. Necessitamos valorizar mais a convivência real, desconstruindo a importância tão grande que tem se dado às redes sociais. E para isso será necessário incentivar a conversa olho no olho, a roda de amigos, o passeio de mãos dadas, o sentar-se no sofá e com o calor da companhia de alguém ao lado aquecer-se nesses dias frios. Depressão invoca companhia real, gente de verdade ao lado e o som da voz vinda não de um alto falante, mas sim de uma boca próxima. Talvez a solidariedade de outra época, quando não éramos tão egoístas, pois dependíamos mais dos outros, seja necessária a essa época. E a discrição do passado – quando não havia redes sociais, nem transmissão ao vivo, selfie e outras manifestações pós-modernas de exibicionismo – nos deixe um pouco mais leves, despreocupados com a opinião alheia e seguros de quem somos não por likes ou número de amigos virtuais, mas sim pelo valor inerente que temos simplesmente por existirmos.

São Paulo, junho de 2019

prgimenez@prgimenez.net

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