LIDERANÇA E ESPIRITUALIDADE

Guilherme Gimenez: Pastor, Professor, Teólogo e Maratonista

Categoria: Mensagem Da Semana (page 1 of 2)

Sentimentos de Época

Por Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

Acabo de saber que mais um jovem se suicidou aos 32 anos. Do meu círculo de convivência esse é o segundo em uma semana, número alarmante em minha opinião. Nos dois casos a causa provável foi a depressão. Fui ler a respeito e me deparei com um artigo interessante do psicanalista Eduardo Silva onde sem rodeios ele diz que a depressão está ligada à época, ao nosso tempo. Ele defende sua ideia mostrando alguns fatores vinculados ao tipo de sofrimento emocional em determinada geração. Diz ele que “hoje não sofremos como há cem anos, por exemplo, a realidade, os problemas e preocupações eram outras. Nesse momento em que alguns chamam de pós-modernidade, hipermodernidade, modernidade líquida etc., vivemos uma realidade que nos afeta a todos, mas de forma singular” (Site Gospel Mais. Acessado em 03 de junho de 2019). Acredito que de fato os sentimentos são afetados pela época em que vivemos. Se fosse resumir a principal marca de nossa época diria que é o egoísmo que aparece nas suas mais diversas formas como narcisismo, individualismo, orgulho, vaidade e por aí vai. A grande maioria dos sentimentos que acabam se transformando em depressão partem de pessoas que só pensam em si mesmas e quando sua autoimagem é de alguma forma afetada, elas não suportam a pressão e se não forem bem assessoradas podem realmente cometer atos que colocam em risco a própria vida. José Roberto Marques, articulista do Portal IBC, fala de uma geração fraca emocionalmente, que se abala facilmente e não consegue se manter firme diante de situações comuns dos relacionamentos humanos como uma opinião diferente ou crítica (Site do IBC Coaching. Acessado em 05 de junho de 2019). Percebemos isso com facilidade quando alguém perde o controle simplesmente porque sua ideia não foi reconhecida como “a melhor de todas” ou porque não recebeu um elogio suficiente forte, principalmente nas redes sociais. Aliás, alguns casos de suicídio estão associados diretamente ao Facebook, Twitter e Instagram. Ter a imagem de alguma forma negativada pode se transformar em um sofrimento capaz de levar alguém à depressão. Se for um sentimento de época, irá passar. Porém não sabemos quando. E até que passe precisamos mais do que nunca investir em fortalecimento emocional de nossos jovens e adolescentes – sem esquecer dos adultos que acabam vivenciando os mesmos sentimentos. Necessitamos valorizar mais a convivência real, desconstruindo a importância tão grande que tem se dado às redes sociais. E para isso será necessário incentivar a conversa olho no olho, a roda de amigos, o passeio de mãos dadas, o sentar-se no sofá e com o calor da companhia de alguém ao lado aquecer-se nesses dias frios. Depressão invoca companhia real, gente de verdade ao lado e o som da voz vinda não de um alto falante, mas sim de uma boca próxima. Talvez a solidariedade de outra época, quando não éramos tão egoístas, pois dependíamos mais dos outros, seja necessária a essa época. E a discrição do passado – quando não havia redes sociais, nem transmissão ao vivo, selfie e outras manifestações pós-modernas de exibicionismo – nos deixe um pouco mais leves, despreocupados com a opinião alheia e seguros de quem somos não por likes ou número de amigos virtuais, mas sim pelo valor inerente que temos simplesmente por existirmos.

São Paulo, junho de 2019

prgimenez@prgimenez.net

8+

Ócio Necessário

Por Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

                “Não posso perder tempo”. Essa é uma frase que ouço com frequência e utilizo com alguma regularidade. Ouvir essa frase de uma criança foi novidade para mim. O garoto de 7 anos a utilizou enquanto olhava para sua agenda e diante de tantos compromissos mostrava sua agitação e quase desespero. E não era para menos: compromissos e mais compromissos, de escola a esportes, ocupavam todo o dia do garoto que mais parecia um adulto em meio as atividades profissionais. Ligados na tela o tempo todo e com uma rotina de gente grande as crianças estão sendo educadas a manterem-se ocupadas o tempo todo. Ou melhor: a ocupar a mente o tempo todo. A não se desligarem, não permitirem o “ócio” por nenhum momento. Quais os prós e contras disso? Poderíamos dizer que as crianças estão sendo preparadas para uma sociedade rápida, onde pessoas precisam ocupar vários papeis e alguns deles ao mesmo tempo. Isso é positivo, quando chegarem na fase adulta, já estarão no ritmo adequado para encarar rotinas pesadas e estressantes. Mas, sinceramente, creio que os pontos negativos são maiores e mais evidentes. O ser humano foi criado com a necessidade do descanso. Ele é um ser que precisa “recarregar suas energias” através do sono – que hoje em dia vai diminuindo tanto em quantidade como em qualidade – e também precisa de pausas em sua rotina – daí a existência do dia de descanso (seja sábado ou domingo) ou da folga semanal. O ser humano precisa descansar, parar, recarregar suas forças e, porque não dizer, ter momentos de “ócio”. E essa palavra é a mais correta para descrever minha ideia. “Ócio” é originado do Latim otium  que por sua vez se de autium que se originou do Indo-Euroepeu “av-eo” que significa “estou bem, vou bem”. A palavra ócio expressa o bem estar que o descanso traz e a necessidade de algumas folgas para sentir-se bem, para refazer-se e estar pronto para os novos desafios. Só um detalhe sobre ócio: a mente precisa descansar e não apenas o corpo. Celulares à cabeceira da cama para responder mensagens de madrugada ou pernas para o ar com um notebook no colo não podem ser compreendidos como descanso. A mente precisa descansar e para isso a quebra da rotina, parar as atividades e fazer algo relaxante é necessário. E para os workaholics, que não querem parar de jeito algum pois se sentem desperdiçando o tempo, um aprendizado com a Bíblia: “No sétimo dia, Deus havia terminado sua obra de criação e descansou de todo o seu trabalho” (Gênesis 2:2). De certo modo podemos dizer que o ócio aparece intencionalmente na história como uma disciplina de parada necessária após as intensas atividades. Então, parar e descansar não é perder tempo. Permitir-se relaxar não é perder tempo. Introduzir a folga semanal, dormir adequadamente e ter momentos de repouso são na realidade ganhos e não perdas pois através deles é que estaremos preparados para as exigências e demandas do dia a dia. Permita-se descansar, permita-se o ócio programado como estratégia para recarregar-se e manter-se fortalecido. Aplicando o ensino Bíblico citado, aprenda a “descansar de todo o seu trabalho…”

São Paulo, maio de 2019

prgimenez@prgimenez.net

5+

O Princípio da diversidade

Por Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

Todos nós enfrentamos problemas diversos na vida, e muitas vezes tentamos resolvê-los sempre da mesma maneira e com a mesma atitude. Será que aí não está um dos motivos pelos quais alguns problemas parecem – ou se tornam – mais complicados do que outros? Quando li pela primeira vez o livro As 5 Linguagens do Amor de Gary Chapman criei um princípio que tenho usado para diversas situações na vida, inclusive na tratativa de problemas. O chamo de “princípio da diversidade”. Da mesma forma que pessoas tem preferências diferentes em suas linguagens de amor, existem situações que tem diferentes formas de serem resolvidas. Exigem atitudes diferentes de nossa parte. O “princípio da diversidade” exige que diante de cada situação, de cada problema, de cada desafio, nós busquemos a atitude mais correta, e em muitos casos, ela será um pouco diferente do que fazemos por tradição pessoal ou até estilo. Precisaremos cultivar novas formas de lidar com as pessoas, novos comportamentos e novas estratégias. A diversidade não está apenas no problema novo, mas também na solução nova. E aqui nasce um desafio que alguns não querem de forma alguma lidar: precisamos aprender novas habilidades e desenvolver atitudes vencedoras diante dos novos problemas e das situações que nos pegam de surpresa, quer por serem totalmente novas ou então por serem versões um pouco diferentes dos problemas antigos.

              O “princípio da diversidade” nos leva pela menos a dois pensamentos: sempre teremos situações novas para lidar e precisamos ser novos para lidar com as situações novas. Sobre o primeiro pensamento – as situações novas – quase nada podemos fazer. Um mundo em mudanças trará, consequentemente, muitas situações novas. Sobre o segundo pensamento, há muito o que fazer. Nós precisamos nos renovar ao lidarmos com problemas novos. Em alguns casos precisaremos estudar alguns assuntos, observar como os outros fazem e com muita humildade estarmos abertos a lidar de modo totalmente novo e diferente daquele que já faz parte de nosso comportamento. As atitudes e pensamentos antigos podem ser inadequados para resolver algumas situações novas. Mas, a atitude e pensamento novo, são a ferramenta eficaz para lidarmos com as questões novas, aquelas que ainda não tem muitas respostas prontas e até teorias já definidas. Para elas nos colocamos como inovadores na busca de soluções, prontos a fazer o que nunca fizemos e a pensar em direções bem diferentes daquelas com as quais baseamos nossas estratégias até então. Diversidade de problemas e de soluções: essa é uma boa teoria nesse momento que vivemos.             

São Paulo, Maio de 2019

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3+

Seguir em frente, ainda que rastejando

Por Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

“Se não puder voar, corra. Se não puder correr, ande. Se não puder andar, rasteje, mas continue em frente de qualquer jeito”. (Martin Luther King)

Já aconteceu com você de não sentir vontade de se levantar da cama exatamente naquele dia quando tem que enfrentar uma situação difícil, ou quando está tão cansado que não se sente fortalecido o bastante para encarar mais um dia de rotinas intensas? Eu acho que já aconteceu com todo mundo. São dias em que estamos cansados, desanimados ou até, em muitos casos, enfermos. A somatória de lutas parece produzir dias em que não queremos mais nos esforçar, falar ou fazer as mesmas coisas e enfrentar as mesmas pessoas nas mesmas reuniões. São dias em que literalmente “rastejamos” em direção ao trabalho, faculdade ou mesmo retornando para casa. Não conseguimos nem correr ou sequer andar: rastejamos com o mínimo de nossas forças. E por que fazemos isso?

Primeiramente porque temos compromissos que exigem nossa interação. Ainda que estejamos cansados ou desanimados, há pessoas e processos que dependem de nós. Nosso mínimo é o máximo de muitas pessoas. Nossa participação pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso.

Segundo porque fazemos parte de equipes que sem nossa presença se quebram. Até a família é uma equipe. Nós somos um dos elos da corrente. Talvez um elo fraco nesse momento, mas ainda assim, importante. A presença silenciosa ou cansada dá mais segurança ao grupo do que a ausência.

Terceiro porque somos únicos, nossa participação ou contribuição é única, ainda que não exclusiva. Nossa participação em uma equipe ou processo nunca é substituída integralmente, pois ninguém tem o nosso perfil. Podem ser melhores do que nós, mas não iguais a nós.

Em resumo, somos insubstituíveis. Rastejamos por compromisso, valor de presença e participação singular nas equipes das quais fazemos parte. E aí vale um pensamento importante: devemos desenvolver esse potencial de seguir em frente – ainda que rastejando – como um privilégio, darmos a nós mesmos o valor que de fato temos, mas não enxergamos quando estamos cansados ou desanimados. Nossa presença é importante e faz a diferença. Quem sabe se lembrarmos disso teremos uma força renovada para seguir em frente e enfrentar mais um dia, uma semana, um ano…

Já aconteceu com você de não sentir vontade de se levantar da cama exatamente naquele dia quando tem que enfrentar uma situação difícil, ou quando está tão cansado que não se sente fortalecido o bastante para encarar mais um dia de rotinas intensas? Eu acho que já aconteceu com todo mundo. São dias em que estamos cansados, desanimados ou até, em muitos casos, enfermos. A somatória de lutas parece produzir dias em que não queremos mais nos esforçar, falar ou fazer as mesmas coisas e enfrentar as mesmas pessoas nas mesmas reuniões. São dias em que literalmente “rastejamos” em direção ao trabalho, faculdade ou mesmo retornando para casa. Não conseguimos nem correr ou sequer andar: rastejamos com o mínimo de nossas forças. E por que fazemos isso?

Primeiramente porque temos compromissos que exigem nossa interação. Ainda que estejamos cansados ou desanimados, há pessoas e processos que dependem de nós. Nosso mínimo é o máximo de muitas pessoas. Nossa participação pode ser a diferença entre o sucesso e o fracasso.

Segundo porque fazemos parte de equipes que sem nossa presença se quebram. Até a família é uma equipe. Nós somos um dos elos da corrente. Talvez um elo fraco nesse momento, mas ainda assim, importante. A presença silenciosa ou cansada dá mais segurança ao grupo do que a ausência.

Terceiro porque somos únicos, nossa participação ou contribuição é única, ainda que não exclusiva. Nossa participação em uma equipe ou processo nunca é substituída integralmente, pois ninguém tem o nosso perfil. Podem ser melhores do que nós, mas não iguais a nós.

Em resumo, somos insubstituíveis. Rastejamos por compromisso, valor de presença e participação singular nas equipes das quais fazemos parte. E aí vale um pensamento importante: devemos desenvolver esse potencial de seguir em frente – ainda que rastejando – como um privilégio, darmos a nós mesmos o valor que de fato temos, mas não enxergamos quando estamos cansados ou desanimados. Nossa presença é importante e faz a diferença. Quem sabe se lembrarmos disso teremos uma força renovada para seguir em frente e enfrentar mais um dia, uma semana, um ano…

7+

Inove ou Fique para Trás

Por Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

Esse é o recado de Dorothy Leonard, autora do livro Deep Smarts: How to Cultivate and Transfer Enduring Business Wisdom (2005). Nessa excelente obra ela mostra como a inovação se tornou indispensável para todos, e como a falta dela traz um prejuízo enorme também para todos. A grande questão que ela levanta é que inovar esbarra diretamente nos relacionamentos entre colegas de trabalho, familiares e até amigos. Não é um processo fácil, principalmente para quem tem uma natureza inclinada à tradição ou para os que são mais velhos e, portanto, tem mais dificuldade em aceitar ou assimilar as mudanças. “Há disputas que prejudicam demais o processo criativo” – comenta ela, deixando claro que a inovação é melhor desenvolvida quando as pessoas tem a liberdade de pensar de modo diferente e propor o que nunca foi realizado.

Para fomentar a inovação é necessário um ambiente de aceitação, onde se discute temas novos sem pudor ou sentimento de culpa, chegando a cogitar abandono de métodos antigos. É praticamente uma ruptura com o passado. Também se espera um ambiente onde avaliam-se possibilidades e, de certo modo, premia-se os que olham para o futuro e são corajosos para pelo menos tentar algo novo. E, para que isso aconteça, tal ambiente deve incentivar a boa vontade entre a equipe, promovendo um respeito acima da média, a ponto de as contrariedades diminuírem e o diálogo aumentar.

Um detalhe é exposto de modo interessante por Dorothy: “não tente entender tudo perfeitamente para somente depois agir”. Por quê? Ela mesma responde: “não temos tempo para isso.” A inovação é tão urgente que nossa reflexão deve ser mais rápida e nosso potencial criativo maior do que nossa possibilidade de compreensão. Se demoramos, perdemos a oportunidade. Se tivermos muito medo de avançar, nos perpetuaremos no passado.

Se pensarmos bem, nosso desafio é gigante: Inovar e ao mesmo tempo criar um ambiente fomentador de inovação. Não queremos ficar para trás e nem nos tornar obsoletos, então, não temos uma alternativa senão sermos inovadores e permitirmos que os que nos cercam sejam inovadores também.

São Paulo, maio de 2019

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prgimenez@prgimenez.net

4+

A Única Certeza é a Incerteza

Por Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

Ikujiro Nonaka é uma das pessoas mais influentes na área de negócios de todo o mundo (Wall Street Journal. 2008). Autor de vários livros, ele tem se tornado referência para várias empresas quando começam processos de mudança e preparam seu planejamento de futuro. Um de seus princípios mais divulgados ao olhar para o futuro é: “a única certeza é a incerteza” (Knowledge Management, Harvard Business Review, 2000). Não se trata de um princípio pessimista ou uma fuga ao planejamento: é mais uma questão da realidade do mundo pós-moderno. Princípio semelhante já havia sido divulgado por Zigmunt Bauman em A Cultura do Mundo Líquido Moderno (2013). A rapidez de nosso tempo exige uma nova visão sobre o futuro, onde não tomamos decisões com total certeza, mas sim com determinação. Há uma grande diferença entre um termo e outro. A certeza se relaciona mais com o conhecimento total dos fatos enquanto a determinação com uma vontade inerente de fazer algo dar certo. No passado o discurso era: “tenho certeza de que isso deve ser feito”. Hoje o discurso é: “Faremos dessa forma e nos esforçaremos para que dê certo”. Precisamos hoje muito mais de determinação do que certezas. Mais de esforço para que algo dê certo. Mais coragem para pelo menos tentar. E isso nos traz uma realidade que extrapola todos os conceitos que tínhamos de administração, planejamento e visão de futuro. A rapidez desse tempo e as mudanças cada vez maiores, nos levam a essa condição de incerteza que nos faz caminhar movidos por coragem, ainda que muitas vezes totalmente despreparados para o que está pela frente.

Diante desse princípio – a única certeza é a incerteza – algumas palavras vêm à nossa mente e nos ajudam a seguir em direção ao futuro: inovar, reinventar e ajustar. O futuro nos obrigará a inovar, fazendo coisas que nunca fizemos, não sabemos fazer, mas sabemos que se não fizermos, sairemos no prejuízo e nos tornaremos retaguarda e não vanguarda na história. Também seremos obrigados a reinventar, fazendo as coisas de um jeito diferente, que nos fará deixar nossa zona de conforto e sair da condição de especialista do passado para analista do futuro. E por vezes nós reinventaremos a mesma coisa várias vezes e dentro de um espaço curto de tempo. E quando não for necessário ou possível reinventar, teremos que nos ajustar, o que será sempre um grande desafio principalmente para quem tinha tudo sob controle em um passado não muito distante e agora se sente um “peixe fora d’água” devido às mudanças e a própria condição desse tempo.

Incerteza é a promessa de um mundo pós-moderno. Inovação, reinvenção e ajustes são nossa resposta. A certeza da incerteza produzirá em nós mais coragem, rapidez para mudar e percepções diferenciadas do futuro. Não estaremos isentos do medo de errar, mas teremos do nosso lado a coragem de pelo menos tentar. 

São Paulo, maio de 2019

prgimenez@prgimenez.net

11+

Liderados Duros Na Queda

Recebi recentemente uma pergunta que me levou a escrever esse texto. Um amigo, líder de uma equipe de cerca de 10 pessoas, disse estar cansado de lidar com um dos liderados, porque em todas as reuniões ele gastava um longo tempo tentando convencê-lo de algum assunto que estava sendo tratado. O apelido desse liderado – dado pelos outros colegas de equipe – era “duro na queda.” Esse amigo, depois de narrar a experiência, foi enfático na pergunta: “o que eu faço? Continuarei me desgastando em todas as reuniões?” Pedi um tempo para pensar. E, ponderando uma série de coisas, respondi da seguinte forma: “Se você precisa gastar toda sua energia para convencer um membro da equipe então é melhor tira-lo da equipe enquanto te sobra ainda um pouco de entusiasmo.” Sinceramente não sei se li isso em algum lugar ou se foi fruto de minha reflexão, mas a resposta é sincera. Se toda a energia está sendo gasta com uma única pessoa apenas para convence-la, então, é necessário tomar a decisão: ou ele ou você. Claro que estamos aqui diante de uma situação crônica, de um liderado “duro na queda” que está há meses ou até anos sendo contrário a todas as ideias, mudanças ou adaptações de rotina. Tal conselho não serviria para um liderado que por uma ou algumas vezes se mostrou contrário. Isso é natural e até saudável. Aqui a questão é de alguém que por sua própria natureza contestadora, por algum problema de relacionamento com o líder ou colegas de equipe ou ainda por alguma questão emocional que lhe afete, se tornou um entrave para o bom andamento dos trabalhos, para as mudanças necessárias e para os novos tempos que a equipe vive. Em vez de somar forças ao grupo acabou por extrair as forças do grupo. Nesse caso, uma radical decisão: preservar o grupo e o líder e retirar o liderado “duro na queda.”

Mas, levando sempre em consideração o valor de um membro de equipe, creio que algumas ações devem anteceder a demissão: (1) Uma conversa franca sobre a postura contestadora e negativa em todas as reuniões; (2) Um prazo para a mudança de atitude; (3) Uma advertência primeiramente reservada e caso a atitude continue uma outra advertência pública; (4) Chamada final para uma mudança de atitude e demissão caso não haja mudança no comportamento. Está claro que nesse processo há um desgaste emocional, até porque as pessoas “duras na queda” costumam reagir negativamente a esse processo, mas, acredite, em vários casos há uma mudança de comportamento, principalmente quando é dada uma advertência, o que significa a chegada da situação a um nível já desconfortável para todos. E nesse caso, a permanência ou saída será uma escolha do próprio liderado, diante de sua mudança de comportamento ou permanência na mesma situação.

Um desgaste contínuo do líder e da equipe toda em função de um único liderado é injustificável. Como respondi àquele amigo, “Se você precisa gastar toda sua energia para convencer um membro da equipe então é melhor tira-lo da equipe enquanto te sobra ainda um pouco de entusiasmo.”

4+

Outra Chance

Você já cometeu uma grande falha e se sente continuamente arrependido do que fez? Tenho impressão de que todos nós já cometemos uma falha assim, daquelas que marcaram nossa história e a de outros. Essas falhas, dependendo de sua natureza, nos causam vergonha, dor, grande tristeza e, em alguns casos, ameaçam destruir nossa autoestima. Há histórias e mais histórias de pessoas que nunca mais foram as mesmas depois de uma falha. E, por não se perdoarem, passam a vida inteira sem atingir a plenitude da paz ou alegria.

Errar faz parte da humanidade. Todos erram e todos sabem disso. Mas, por algum motivo, dois grandes fenômenos acontecem diante de nossas falhas: não nos perdoamos e/ou não nos perdoam. E, aqui, o verbo perdoar representa uma série de outros que têm a mesma conotação: a falta de superação diante de um erro. O que fazer para mudar esse ciclo terrível de tristeza e baixa autoestima diante dos erros? A expressão que me vem à mente é: “dar outra chance”. A nós e aos outros. O erro, a falha e o deslize podem e devem tornar-se impulso para mudanças significativas, mas elas só vêm quando damos outra chance aos outros e a nós.

Outra chance para nós mesmos só acontece quando reconhecemos nossos erros e falhas e os admitimos a nós mesmos bem como àqueles a quem ferimos, magoamos ou entristecemos. Negar o erro não cria novas chances. Admiti-los e confrontá-los é necessário para começarmos um processo de cura, de resolução, de enfrentamento e mudança. Nesse processo, temos que encarar-nos diante do espelho e dizermos para nós mesmos: falhei, mas não quero continuar do mesmo jeito. Feri pessoas, mas não quero ferir mais. Cometi um grande erro, mas, a partir daqui, tentarei cometer grandes acertos. Faz parte do mesmo processo olhar para o outro e pedir perdão, ainda que o outro esteja muito chateado, magoado, furioso e aborrecido. Se ele irá nos dar uma chance ou não é outra história, faz parte da decisão dele. O que deve ser feito é olhar, falar e, por conseguinte, dar uma nova chance ao relacionamento, que poderá ou não ser aproveitada pelo outro.

E, sobre o outro nos dar uma nova chance, sempre será uma incógnita. Talvez a nova chance seja um recomeço, nos mesmos termos do passado. Talvez seja reinventar o relacionamento. Talvez seja uma fórmula, um novo modelo ou mesmo um rompimento. Às vezes, a nova chance será um relacionamento totalmente novo. Diferente de tudo o que vivemos. Então, a questão é estar preparado para o que começará a partir da nova chance, e, como o nome diz, é nova chance, então, devemos estar prontos a receber o que está por vir, ainda que seja diferente do que gostaríamos de experimentar.

Outra chance para nós e para os outros. Se preferir, também pode chamar isso de perdão ou reconciliação.

Por Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

17+

QUEM NÃO VIVE PARA SERVIR NÃO SERVE PARA VIVER

Uma das frases que ouvi bastante em minha infância e adolescência foi essa: “Quem não serve para servir não serve para viver”. Lembro-me de vários líderes usando-a para despertar o voluntariado e a disponibilidade de pessoas. Aparentemente, a frase atingia o efeito desejado. Mas isso foi há mais de 35 anos. Percebi que, de lá para cá, algo mudou quando, em uma aula dada no ano de 2018, um aluno mais velho da classe a utilizou e, logo, uma série de comentários negativos sobre ela se levantaram. Frases do tipo: “Então, eu só tenho valor se servir?” ou “Eu valho pelo que faço, e não por quem sou?” Esses comentários me levaram a repensar a frase. E, ao fazer isso, cheguei a algumas conclusões: Não valemos pelo que fazemos, mas agregamos valor à nossa vida e à vida de outros quando fazemos.

A questão não está no ato em si, mas no que está associado a ele. Ao servir, colocamos nossos dons, talentos, tempo, potencial, criatividade e outros recursos dos quais dispomos em prática, e isso agrega valor a nós mesmos, pois a prática vai nos tornando mais excelentes, nós melhoramos ao praticarmos. Sentimo-nos mais valorosos quando conseguimos transformar nosso potencial em ações que não beneficiam apenas os outros, mas a nós mesmos. Nossa autoestima melhora quando servimos. Igual efeito acontece com aqueles a quem servimos. Eles também se sentem valorizados, pois, ao receber qualquer tipo de ajuda, uma pessoa associa ao gesto recebido sentimentos, como amor, preocupação, gentileza e outros. A pessoa que recebe é muitíssimo beneficiada com nossos atos de serviço. Nós nos sentimos melhores, e quem é servido também se sente. E aqui se agrega muito valor à vida, nossa e do outro, servir traz consigo essa dádiva da existência em sua expressão mais prática.

Mas também não podemos esquecer que servir une pessoas e as desperta para viverem juntas. Russell Shedd escreveu um livro chamado A Solidariedade da Raça (Edições Vida Nova, 1995) e, nele, nos lembra que há uma ligação entre os seres humanos, o que ele chama de solidariedade. Não nascemos para vivermos sozinhos, a coletividade é nossa linguagem. E é incrível como servir uma pessoa nos faz vivenciar essa solidariedade de forma tão forte que, raramente, nos esquecemos das pessoas a quem servimos e por quem fomos servidos. Servir é convidar o outro para o seu mundo através de um gesto, seja ele qual for. Dar um prato de comida a um faminto ou abrir a porta de um auditório para alguém entrar são maneiras de aproximação de pessoas. Da mesma forma, receber ajuda também é. Aquele que dá e o que recebe se unem, pelo menos naquele momento, e se sentem parte um do outro. Se continuarão unidos é outra história, mas que o servir nos faz solidários, isso faz.

Viver para servir é uma possibilidade. Seria melhor se fosse um imperativo, mas não é. Alguns não querem servir e não servirão ninguém. E, acredite, alguns, mesmo precisando, também não aceitarão ser servidos. A esses fica o respeito, e a expectativa de que um dia entendam os benefícios de dar e receber, de ajudar e ser ajudado, de servir e ser servido. Que tal solidariedade seja cada vez mais visível entre nós.

Por Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

15+

INSATISFEITO

“Eu quero mais” – Essa é a frase que define bem o indivíduo insatisfeito. Não importa o que ou quanto ele tenha, ainda assim, ele quer mais. É como se houvesse um vazio ou um buraco em sua existência, por onde sempre escapa algo e, por isso, é necessário, continuamente, preencher, sempre buscando por mais. A frase vale para valores materiais, sensações ou, dependendo do caso, até relacionamentos interpessoais. O rico quer ficar mais rico. O aventureiro quer mais aventuras. O amante quer mais relacionamentos, e por aí vai. O insatisfeito está continuamente em busca de algo ou alguém.
Um exemplo nítido disso está em uma pesquisa realizada pela Escola de Negócios da Universidade de Harvard e divulgada pela BBC News (01/01/2018. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-42512066#). O pesquisador responsável pelo estudo, Grant Donelly, entrevistou mais de 4000 milionários do mundo e concluiu que para “um quarto dos milionários entrevistados, para ser ‘feliz’, precisaria que sua riqueza aumentasse em 1.000%.” A que podemos atribuir essa necessidade de ter mais? Alguns diriam ambição. Eu prefiro chamar de insatisfação. A ambição pode levá-lo a querer conquistar mais, porém apenas a insatisfação o faz ir em busca da felicidade mensurada por aquisição. O princípio dessa busca por felicidade através do ter mais serve também para aquele que busca emoções maiores, como o praticante de esportes radicais. De vez em quando, vemos um desses morrer em suas aventuras porque estava tentando realizar algo ainda mais difícil, que lhe desse – como eles mesmos dizem – mais adrenalina. E, por mais estranho que possa parecer, quantos casamentos não foram rompidos porque um dos cônjuges também foi atrás de mais relacionamentos na tentativa de ser mais feliz.

A grande questão que incomoda nesse processo de insatisfação é que a sensação de adquirir não corresponde à realidade. O milionário precisará, realmente, de mais dinheiro para ser feliz? Quantos deles, já nos últimos anos de vida, ainda buscam por mais dinheiro, ainda que saibam que sequer conseguirão gastá-lo. E o perigo da morte que o aventureiro corre diante de um desafio que lhe produza ainda mais emoção? E o prejuízo a uma família inteira, em função de uma aventura extraconjugal justificada pelo amor? A realidade fica contrastada por essa busca desenfreada pelo “mais” que, muitas vezes, acaba se transformando em perda, afinal, não são poucas as histórias de ricos que encerram sua vida gravemente enfermos, de aventureiros que passam seus últimos anos de vida sobre uma cama após um acidente ou daqueles que, em busca de romances, encerram seus dias sozinhos.

Um conselho interessante, extraído da Bíblia, pode nos ajudar a lidar com a insatisfação: “Quem ama o dinheiro nunca terá o suficiente. Quem ama a riqueza nunca se satisfará com o que ganha. Não faz sentido viver desse modo!” (Eclesiastes 5.10). Em outras palavras, para lidar com a insatisfação, é necessária uma dose de realidade bem expressa pela frase “não faz sentido viver desse modo”. A insatisfação não faz sentido. A busca por mais e mais não faz sentido. E, se não faz sentido, logo, precisa ser dominada, isto é algo que todo ser humano pode aprender desde que tenha domínio sobre o ímpeto de obter mais e se lembre, constantemente, da finitude da vida e de que há um limite para tudo: para a riqueza, para a aventura, para o amor, e por aí vai. Contentamento é possível e desejável. Que tenhamos a sabedoria de desenvolvê-lo.

14+
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