LIDERANÇA E ESPIRITUALIDADE

Guilherme Gimenez: Pastor, Professor, Teólogo e Maratonista

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A Única Certeza é a Incerteza

Por Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

Ikujiro Nonaka é uma das pessoas mais influentes na área de negócios de todo o mundo (Wall Street Journal. 2008). Autor de vários livros, ele tem se tornado referência para várias empresas quando começam processos de mudança e preparam seu planejamento de futuro. Um de seus princípios mais divulgados ao olhar para o futuro é: “a única certeza é a incerteza” (Knowledge Management, Harvard Business Review, 2000). Não se trata de um princípio pessimista ou uma fuga ao planejamento: é mais uma questão da realidade do mundo pós-moderno. Princípio semelhante já havia sido divulgado por Zigmunt Bauman em A Cultura do Mundo Líquido Moderno (2013). A rapidez de nosso tempo exige uma nova visão sobre o futuro, onde não tomamos decisões com total certeza, mas sim com determinação. Há uma grande diferença entre um termo e outro. A certeza se relaciona mais com o conhecimento total dos fatos enquanto a determinação com uma vontade inerente de fazer algo dar certo. No passado o discurso era: “tenho certeza de que isso deve ser feito”. Hoje o discurso é: “Faremos dessa forma e nos esforçaremos para que dê certo”. Precisamos hoje muito mais de determinação do que certezas. Mais de esforço para que algo dê certo. Mais coragem para pelo menos tentar. E isso nos traz uma realidade que extrapola todos os conceitos que tínhamos de administração, planejamento e visão de futuro. A rapidez desse tempo e as mudanças cada vez maiores, nos levam a essa condição de incerteza que nos faz caminhar movidos por coragem, ainda que muitas vezes totalmente despreparados para o que está pela frente.

Diante desse princípio – a única certeza é a incerteza – algumas palavras vêm à nossa mente e nos ajudam a seguir em direção ao futuro: inovar, reinventar e ajustar. O futuro nos obrigará a inovar, fazendo coisas que nunca fizemos, não sabemos fazer, mas sabemos que se não fizermos, sairemos no prejuízo e nos tornaremos retaguarda e não vanguarda na história. Também seremos obrigados a reinventar, fazendo as coisas de um jeito diferente, que nos fará deixar nossa zona de conforto e sair da condição de especialista do passado para analista do futuro. E por vezes nós reinventaremos a mesma coisa várias vezes e dentro de um espaço curto de tempo. E quando não for necessário ou possível reinventar, teremos que nos ajustar, o que será sempre um grande desafio principalmente para quem tinha tudo sob controle em um passado não muito distante e agora se sente um “peixe fora d’água” devido às mudanças e a própria condição desse tempo.

Incerteza é a promessa de um mundo pós-moderno. Inovação, reinvenção e ajustes são nossa resposta. A certeza da incerteza produzirá em nós mais coragem, rapidez para mudar e percepções diferenciadas do futuro. Não estaremos isentos do medo de errar, mas teremos do nosso lado a coragem de pelo menos tentar. 

São Paulo, maio de 2019

prgimenez@prgimenez.net

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Liderados Duros Na Queda

Recebi recentemente uma pergunta que me levou a escrever esse texto. Um amigo, líder de uma equipe de cerca de 10 pessoas, disse estar cansado de lidar com um dos liderados, porque em todas as reuniões ele gastava um longo tempo tentando convencê-lo de algum assunto que estava sendo tratado. O apelido desse liderado – dado pelos outros colegas de equipe – era “duro na queda.” Esse amigo, depois de narrar a experiência, foi enfático na pergunta: “o que eu faço? Continuarei me desgastando em todas as reuniões?” Pedi um tempo para pensar. E, ponderando uma série de coisas, respondi da seguinte forma: “Se você precisa gastar toda sua energia para convencer um membro da equipe então é melhor tira-lo da equipe enquanto te sobra ainda um pouco de entusiasmo.” Sinceramente não sei se li isso em algum lugar ou se foi fruto de minha reflexão, mas a resposta é sincera. Se toda a energia está sendo gasta com uma única pessoa apenas para convence-la, então, é necessário tomar a decisão: ou ele ou você. Claro que estamos aqui diante de uma situação crônica, de um liderado “duro na queda” que está há meses ou até anos sendo contrário a todas as ideias, mudanças ou adaptações de rotina. Tal conselho não serviria para um liderado que por uma ou algumas vezes se mostrou contrário. Isso é natural e até saudável. Aqui a questão é de alguém que por sua própria natureza contestadora, por algum problema de relacionamento com o líder ou colegas de equipe ou ainda por alguma questão emocional que lhe afete, se tornou um entrave para o bom andamento dos trabalhos, para as mudanças necessárias e para os novos tempos que a equipe vive. Em vez de somar forças ao grupo acabou por extrair as forças do grupo. Nesse caso, uma radical decisão: preservar o grupo e o líder e retirar o liderado “duro na queda.”

Mas, levando sempre em consideração o valor de um membro de equipe, creio que algumas ações devem anteceder a demissão: (1) Uma conversa franca sobre a postura contestadora e negativa em todas as reuniões; (2) Um prazo para a mudança de atitude; (3) Uma advertência primeiramente reservada e caso a atitude continue uma outra advertência pública; (4) Chamada final para uma mudança de atitude e demissão caso não haja mudança no comportamento. Está claro que nesse processo há um desgaste emocional, até porque as pessoas “duras na queda” costumam reagir negativamente a esse processo, mas, acredite, em vários casos há uma mudança de comportamento, principalmente quando é dada uma advertência, o que significa a chegada da situação a um nível já desconfortável para todos. E nesse caso, a permanência ou saída será uma escolha do próprio liderado, diante de sua mudança de comportamento ou permanência na mesma situação.

Um desgaste contínuo do líder e da equipe toda em função de um único liderado é injustificável. Como respondi àquele amigo, “Se você precisa gastar toda sua energia para convencer um membro da equipe então é melhor tira-lo da equipe enquanto te sobra ainda um pouco de entusiasmo.”

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TREINO DE 15KM…

Preparação para a Mizuno Uphill 2019

Depois da Maratona de Santiago os treinos longos voltaram… tudo bem que não tão longos assim, afinal, estamos falando de 15km, mas já pode-se dizer que é pelo menos um “longuinho…”
Nesse treino volto a um trajeto já conhecido, porém com mais velocidade. Passei bem pelo meio do Show da Igreja da Graça que era realizado no Sábado de Páscoa no Campo de Marte…

Assista o vídeo
Curta os melhores momentos desse treino de 1H26M.

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A dor dos 37km

No último dia 07 de abril de 2019 corri minha primeira maratona. Que experiência incrível! Foram 4 meses de preparação que incluíram uma série de mudanças, desde alimentares (perdi 12 quilos com a dieta Low Carb) até mesmo na rotina, acordando aos sábados às 4 horas da manhã para fazer os treinos longos. Tudo valeu a pena! Em pleno domingo estava eu lá no centro de Santiago de Chile para correr os 42km da Maratona de Santiago. Eu e mais 33.000 corredores. Ás 8:00 horas da manhã começou o maior teste de resistência física e emocional que eu teria até então em meus 48 anos de idade. Sol forte durante todo o trajeto, clima muito seco e o desgaste natural que a corrida traz à cada km. A corrida foi evoluindo, e a cada km o sonho ia se tornando realidade. 5, 10, 15, 21, 25, 30, 35 km… Cansado mas firme… E aos poucos comecei a sentir o famoso efeito “muro” que é tão falado pelos maratonistas. Por volta dos 30-37 km um cansaço extremo, associado com dor e uma vontade enorme de desistir vai tomando conta do corredor e é nesse momento que muitos desistem. Meu muro aconteceu aos 37km… Estava animado, cansado mas firme, porém as dores que comecei a sentir se transformaram em meu “muro” pessoal. Que dor!!! De repente parecia que os km ficavam mais longos. Sentia minhas pernas fraquejarem, minhas costas doíam, meus pés, minhas coxas… Que dor!!! Cheguei a gemer, gritar e por mais de uma vez passou pela minha mente a vontade de parar para aliviar o sofrimento. Não parei. Continuei firme mesmo dolorido. Foram os 3 km mais sofridos de todo o percurso. Até que, milagrosamente, ao chegar no km 40, a dor sumiu. Sem exageros da minha parte, a dor sumiu totalmente. Estava cansado, exausto, mas se dor. E aí, já na reta final, corri os 2km mais rápidos de toda a maratona. Parecia que estava começando a correr naquele momento. Eu não acreditava no que estava acontecendo… Eu havia vencido a dor e mais do que isso, estava super bem para encerrar a maratona tão sonhada. Valeu a pena superar a dor e não desistir. Uma lição aprendida com isso: a dor não é sinônimo de “está tudo acabado.” A dor não é a linha final mas apenas um momento que a antecede. Resistir à dor é necessário, ainda que momentaneamente pareça impossível. Você pode superar a dor. Pode seguir em frente mesmo com dor. E pode, depois do seu “muro” (seja ele qual for), ter momentos triunfais, fascinantes, maravilhosos da sua vida. Minha principal lição da Maratona de Santiago foi essa: é possível vencer a dor e encerrar a prova. Funcionou para uma maratona, funcionará para vida também.MDS19-690477

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Sou Maratonista…

07 de Abril de 2019… cidade de Santiago no Chile… Maratona de Santiago 2019… Na somatória desses elementos nasceu um maratonista: eu!!! Nem acredito que consegui correr os 42 km da maratona… Clima seco, sol quente do começo ao final, as famosas dores da maratona… tudo isso e, claro, uma emoção ímpar que conseguiu me levar adiante até o final.

Agradeço a Deus por essa grande bênção, uma vitória de superação na minha história pessoal de vida. Fiz um vídeo tentando registrar toda a emoção. Assista se puder e compartilhe dessa grande alegria que estou sentindo!!!!

Assista aqui o vídeo:

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Outra Chance

Você já cometeu uma grande falha e se sente continuamente arrependido do que fez? Tenho impressão de que todos nós já cometemos uma falha assim, daquelas que marcaram nossa história e a de outros. Essas falhas, dependendo de sua natureza, nos causam vergonha, dor, grande tristeza e, em alguns casos, ameaçam destruir nossa autoestima. Há histórias e mais histórias de pessoas que nunca mais foram as mesmas depois de uma falha. E, por não se perdoarem, passam a vida inteira sem atingir a plenitude da paz ou alegria.

Errar faz parte da humanidade. Todos erram e todos sabem disso. Mas, por algum motivo, dois grandes fenômenos acontecem diante de nossas falhas: não nos perdoamos e/ou não nos perdoam. E, aqui, o verbo perdoar representa uma série de outros que têm a mesma conotação: a falta de superação diante de um erro. O que fazer para mudar esse ciclo terrível de tristeza e baixa autoestima diante dos erros? A expressão que me vem à mente é: “dar outra chance”. A nós e aos outros. O erro, a falha e o deslize podem e devem tornar-se impulso para mudanças significativas, mas elas só vêm quando damos outra chance aos outros e a nós.

Outra chance para nós mesmos só acontece quando reconhecemos nossos erros e falhas e os admitimos a nós mesmos bem como àqueles a quem ferimos, magoamos ou entristecemos. Negar o erro não cria novas chances. Admiti-los e confrontá-los é necessário para começarmos um processo de cura, de resolução, de enfrentamento e mudança. Nesse processo, temos que encarar-nos diante do espelho e dizermos para nós mesmos: falhei, mas não quero continuar do mesmo jeito. Feri pessoas, mas não quero ferir mais. Cometi um grande erro, mas, a partir daqui, tentarei cometer grandes acertos. Faz parte do mesmo processo olhar para o outro e pedir perdão, ainda que o outro esteja muito chateado, magoado, furioso e aborrecido. Se ele irá nos dar uma chance ou não é outra história, faz parte da decisão dele. O que deve ser feito é olhar, falar e, por conseguinte, dar uma nova chance ao relacionamento, que poderá ou não ser aproveitada pelo outro.

E, sobre o outro nos dar uma nova chance, sempre será uma incógnita. Talvez a nova chance seja um recomeço, nos mesmos termos do passado. Talvez seja reinventar o relacionamento. Talvez seja uma fórmula, um novo modelo ou mesmo um rompimento. Às vezes, a nova chance será um relacionamento totalmente novo. Diferente de tudo o que vivemos. Então, a questão é estar preparado para o que começará a partir da nova chance, e, como o nome diz, é nova chance, então, devemos estar prontos a receber o que está por vir, ainda que seja diferente do que gostaríamos de experimentar.

Outra chance para nós e para os outros. Se preferir, também pode chamar isso de perdão ou reconciliação.

Por Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

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QUEM NÃO VIVE PARA SERVIR NÃO SERVE PARA VIVER

Uma das frases que ouvi bastante em minha infância e adolescência foi essa: “Quem não serve para servir não serve para viver”. Lembro-me de vários líderes usando-a para despertar o voluntariado e a disponibilidade de pessoas. Aparentemente, a frase atingia o efeito desejado. Mas isso foi há mais de 35 anos. Percebi que, de lá para cá, algo mudou quando, em uma aula dada no ano de 2018, um aluno mais velho da classe a utilizou e, logo, uma série de comentários negativos sobre ela se levantaram. Frases do tipo: “Então, eu só tenho valor se servir?” ou “Eu valho pelo que faço, e não por quem sou?” Esses comentários me levaram a repensar a frase. E, ao fazer isso, cheguei a algumas conclusões: Não valemos pelo que fazemos, mas agregamos valor à nossa vida e à vida de outros quando fazemos.

A questão não está no ato em si, mas no que está associado a ele. Ao servir, colocamos nossos dons, talentos, tempo, potencial, criatividade e outros recursos dos quais dispomos em prática, e isso agrega valor a nós mesmos, pois a prática vai nos tornando mais excelentes, nós melhoramos ao praticarmos. Sentimo-nos mais valorosos quando conseguimos transformar nosso potencial em ações que não beneficiam apenas os outros, mas a nós mesmos. Nossa autoestima melhora quando servimos. Igual efeito acontece com aqueles a quem servimos. Eles também se sentem valorizados, pois, ao receber qualquer tipo de ajuda, uma pessoa associa ao gesto recebido sentimentos, como amor, preocupação, gentileza e outros. A pessoa que recebe é muitíssimo beneficiada com nossos atos de serviço. Nós nos sentimos melhores, e quem é servido também se sente. E aqui se agrega muito valor à vida, nossa e do outro, servir traz consigo essa dádiva da existência em sua expressão mais prática.

Mas também não podemos esquecer que servir une pessoas e as desperta para viverem juntas. Russell Shedd escreveu um livro chamado A Solidariedade da Raça (Edições Vida Nova, 1995) e, nele, nos lembra que há uma ligação entre os seres humanos, o que ele chama de solidariedade. Não nascemos para vivermos sozinhos, a coletividade é nossa linguagem. E é incrível como servir uma pessoa nos faz vivenciar essa solidariedade de forma tão forte que, raramente, nos esquecemos das pessoas a quem servimos e por quem fomos servidos. Servir é convidar o outro para o seu mundo através de um gesto, seja ele qual for. Dar um prato de comida a um faminto ou abrir a porta de um auditório para alguém entrar são maneiras de aproximação de pessoas. Da mesma forma, receber ajuda também é. Aquele que dá e o que recebe se unem, pelo menos naquele momento, e se sentem parte um do outro. Se continuarão unidos é outra história, mas que o servir nos faz solidários, isso faz.

Viver para servir é uma possibilidade. Seria melhor se fosse um imperativo, mas não é. Alguns não querem servir e não servirão ninguém. E, acredite, alguns, mesmo precisando, também não aceitarão ser servidos. A esses fica o respeito, e a expectativa de que um dia entendam os benefícios de dar e receber, de ajudar e ser ajudado, de servir e ser servido. Que tal solidariedade seja cada vez mais visível entre nós.

Por Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

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Consegui… 35km de corrida por São Paulo…

Nesse último sábado, dia 16 de março de 2019, fiz meu último treino longo antes da Maratona de Santiago. Corri 35km… Grande aventura… Experiência única… Para mim foi uma mistura de emoção e superação. Eu sinceramente não esperava chegar a uma distância tão grande em um período tão curto.

Curta o vídeo que eu fiz com o trajeto e algumas experiências durante a corrida clicando aqui.

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Detalhes da corrida: Tempo: 3H47M25S

Pace: 6:30

Calorias: 2.102

Velocidade: 9,3 km/h

Frequência cardíaca média: 159bpm

Cadência média: 170 rpm

Trajeto: Avenida Braz Leme, Ponte da Casa Verdade, Avenida Abraão Ribeiro, Memorial da América Latina, Terminal Barra Funda, Avenida Francisco Matarazzo, Shopping Bourbon, Avenida Sumaré, Avenida Dr. Arnaldo, Avenida Paulista, Avenida Vergueiro, Rua Senna Madureira, Parque do Ibirapuera, Avenida Brasil, Avenida Henrique Schaumann e retorno pela Avenida Sumaré

4+

INSATISFEITO

“Eu quero mais” – Essa é a frase que define bem o indivíduo insatisfeito. Não importa o que ou quanto ele tenha, ainda assim, ele quer mais. É como se houvesse um vazio ou um buraco em sua existência, por onde sempre escapa algo e, por isso, é necessário, continuamente, preencher, sempre buscando por mais. A frase vale para valores materiais, sensações ou, dependendo do caso, até relacionamentos interpessoais. O rico quer ficar mais rico. O aventureiro quer mais aventuras. O amante quer mais relacionamentos, e por aí vai. O insatisfeito está continuamente em busca de algo ou alguém.
Um exemplo nítido disso está em uma pesquisa realizada pela Escola de Negócios da Universidade de Harvard e divulgada pela BBC News (01/01/2018. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-42512066#). O pesquisador responsável pelo estudo, Grant Donelly, entrevistou mais de 4000 milionários do mundo e concluiu que para “um quarto dos milionários entrevistados, para ser ‘feliz’, precisaria que sua riqueza aumentasse em 1.000%.” A que podemos atribuir essa necessidade de ter mais? Alguns diriam ambição. Eu prefiro chamar de insatisfação. A ambição pode levá-lo a querer conquistar mais, porém apenas a insatisfação o faz ir em busca da felicidade mensurada por aquisição. O princípio dessa busca por felicidade através do ter mais serve também para aquele que busca emoções maiores, como o praticante de esportes radicais. De vez em quando, vemos um desses morrer em suas aventuras porque estava tentando realizar algo ainda mais difícil, que lhe desse – como eles mesmos dizem – mais adrenalina. E, por mais estranho que possa parecer, quantos casamentos não foram rompidos porque um dos cônjuges também foi atrás de mais relacionamentos na tentativa de ser mais feliz.

A grande questão que incomoda nesse processo de insatisfação é que a sensação de adquirir não corresponde à realidade. O milionário precisará, realmente, de mais dinheiro para ser feliz? Quantos deles, já nos últimos anos de vida, ainda buscam por mais dinheiro, ainda que saibam que sequer conseguirão gastá-lo. E o perigo da morte que o aventureiro corre diante de um desafio que lhe produza ainda mais emoção? E o prejuízo a uma família inteira, em função de uma aventura extraconjugal justificada pelo amor? A realidade fica contrastada por essa busca desenfreada pelo “mais” que, muitas vezes, acaba se transformando em perda, afinal, não são poucas as histórias de ricos que encerram sua vida gravemente enfermos, de aventureiros que passam seus últimos anos de vida sobre uma cama após um acidente ou daqueles que, em busca de romances, encerram seus dias sozinhos.

Um conselho interessante, extraído da Bíblia, pode nos ajudar a lidar com a insatisfação: “Quem ama o dinheiro nunca terá o suficiente. Quem ama a riqueza nunca se satisfará com o que ganha. Não faz sentido viver desse modo!” (Eclesiastes 5.10). Em outras palavras, para lidar com a insatisfação, é necessária uma dose de realidade bem expressa pela frase “não faz sentido viver desse modo”. A insatisfação não faz sentido. A busca por mais e mais não faz sentido. E, se não faz sentido, logo, precisa ser dominada, isto é algo que todo ser humano pode aprender desde que tenha domínio sobre o ímpeto de obter mais e se lembre, constantemente, da finitude da vida e de que há um limite para tudo: para a riqueza, para a aventura, para o amor, e por aí vai. Contentamento é possível e desejável. Que tenhamos a sabedoria de desenvolvê-lo.

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REFÉNS DA OBSOLESCÊNCIA

(por Guilherme Gimenez)

“O maior desafio das mudanças é perceber que algumas delas não são opcionais. Ou mudamos ou então ficamos reféns da obsolescência”.
(John Terry)

Redução gradativa e consequente desaparecimento. Esse é um dos significados da palavra ‘obsolescência’.
Ela indica o final de um processo que resulta em sua extinção. Na medicina, pode indicar a atrofia de tecidos, motivada por esclerose. Na tecnologia, pode indicar a total inutilidade de um processo devido ao avanço de novas tecnologias. E na liderança, pode indicar o desastre organizacional motivado pelo uso de ferramentas ou estruturas que não conseguem mais atingir os resultados satisfatórios diante de um novo momento histórico.

A obsolescência é um fenômeno que aparece constantemente na história da humanidade. De tempos em tempos, processos vão sendo desgastados e entram em obsolescência. Até relacionamentos correm o mesmo risco se não considerarem demandas que alteram a convivência e vão, aos poucos, produzindo desgaste tal até o ponto da extinção. O que funcionava tão bem agora não funciona mais. Estruturas outrora de vanguarda agora estão na retaguarda. Linguagem, preferências, ideias e outros elementos sofrem o mesmo risco.

O que fazer diante disso? Alguns não fazem nada. Preferem acompanhar o desgaste e sofrer até que finalmente sejam obrigados a admitir a extinção de algo que lhes é importante. E esse processo não é fácil. Por vezes, vem acompanhado de tristeza, revolta e uma sensação de derrota enorme. É difícil admitir que algo caminha para a obsolescência, porém é mais difícil ter de encarar o imperativo de mudanças das quais discordamos, mas que são reais e trazem desgastes que não podem ser ignorados.

O pior de todo esse processo é que, por ser muito passional, acaba tornando algumas pessoas reféns. Reféns do passado e suas glórias, de terem participado de momentos de glória através de uma estrutura que funcionava tão bem. Ou de uma instituição que foi considerada a melhor nessa ou naquela área. O fato de termos participado de algo que deu certo no passado nos leva a momentos de grande saudosismo, quando nos queixamos por não conseguirmos mais os mesmos resultados fazendo as mesmas coisas que fazíamos. E, reféns desse sentimento, tentamos com todas as nossas forças manter uma estrutura, uma visão ou um modelo. E por mais que invistamos tempo, dinheiro e talento, somos vencidos pelo desgaste e nada podemos fazer a não ser acompanhar a obsolescência.

A única receita para não ficar refém desse processo é se libertar enquanto ainda é possível. A libertação vem acompanhada por novas ideias, novas possibilidades, novos investimentos, nova visão, nova filosofia de trabalho. Isso resulta em estruturas novas, modelos diferentes, implantações, reformulações e até mesmo modificações drásticas na forma de encarar a vida. Essa libertação cria expectativas, novos sentimentos, reinvenção de nossos próprios talentos, colocados agora a serviço de algo novo. Em momentos assim, parece ouvirmos a voz do profeta Isaías dizendo “crio novos céus e nova terra; e não haverá mais lembrança das coisas passadas” (Isaías 65.17).
Em vez de reféns do que se desgastou e extinguiu, tomemos uma atitude de avanço e total envolvimento com o que está por vir. Isso, sem dúvida, terá o poder de fazer-nos sentir novamente empolgados, animados e prontos a trabalhar com alegria. Ninguém é feliz sendo refém da obsolescência. Precisamos ser libertos pelas possibilidades que estão diante de nós.

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