Uma das frases que ouvi bastante em minha infância e adolescência foi essa: “Quem não serve para servir não serve para viver”. Lembro-me de vários líderes usando-a para despertar o voluntariado e a disponibilidade de pessoas. Aparentemente, a frase atingia o efeito desejado. Mas isso foi há mais de 35 anos. Percebi que, de lá para cá, algo mudou quando, em uma aula dada no ano de 2018, um aluno mais velho da classe a utilizou e, logo, uma série de comentários negativos sobre ela se levantaram. Frases do tipo: “Então, eu só tenho valor se servir?” ou “Eu valho pelo que faço, e não por quem sou?” Esses comentários me levaram a repensar a frase. E, ao fazer isso, cheguei a algumas conclusões: Não valemos pelo que fazemos, mas agregamos valor à nossa vida e à vida de outros quando fazemos.

A questão não está no ato em si, mas no que está associado a ele. Ao servir, colocamos nossos dons, talentos, tempo, potencial, criatividade e outros recursos dos quais dispomos em prática, e isso agrega valor a nós mesmos, pois a prática vai nos tornando mais excelentes, nós melhoramos ao praticarmos. Sentimo-nos mais valorosos quando conseguimos transformar nosso potencial em ações que não beneficiam apenas os outros, mas a nós mesmos. Nossa autoestima melhora quando servimos. Igual efeito acontece com aqueles a quem servimos. Eles também se sentem valorizados, pois, ao receber qualquer tipo de ajuda, uma pessoa associa ao gesto recebido sentimentos, como amor, preocupação, gentileza e outros. A pessoa que recebe é muitíssimo beneficiada com nossos atos de serviço. Nós nos sentimos melhores, e quem é servido também se sente. E aqui se agrega muito valor à vida, nossa e do outro, servir traz consigo essa dádiva da existência em sua expressão mais prática.

Mas também não podemos esquecer que servir une pessoas e as desperta para viverem juntas. Russell Shedd escreveu um livro chamado A Solidariedade da Raça (Edições Vida Nova, 1995) e, nele, nos lembra que há uma ligação entre os seres humanos, o que ele chama de solidariedade. Não nascemos para vivermos sozinhos, a coletividade é nossa linguagem. E é incrível como servir uma pessoa nos faz vivenciar essa solidariedade de forma tão forte que, raramente, nos esquecemos das pessoas a quem servimos e por quem fomos servidos. Servir é convidar o outro para o seu mundo através de um gesto, seja ele qual for. Dar um prato de comida a um faminto ou abrir a porta de um auditório para alguém entrar são maneiras de aproximação de pessoas. Da mesma forma, receber ajuda também é. Aquele que dá e o que recebe se unem, pelo menos naquele momento, e se sentem parte um do outro. Se continuarão unidos é outra história, mas que o servir nos faz solidários, isso faz.

Viver para servir é uma possibilidade. Seria melhor se fosse um imperativo, mas não é. Alguns não querem servir e não servirão ninguém. E, acredite, alguns, mesmo precisando, também não aceitarão ser servidos. A esses fica o respeito, e a expectativa de que um dia entendam os benefícios de dar e receber, de ajudar e ser ajudado, de servir e ser servido. Que tal solidariedade seja cada vez mais visível entre nós.

Por Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

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