Por Guilherme de Amorim Ávilla Gimenez

                “Não posso perder tempo”. Essa é uma frase que ouço com frequência e utilizo com alguma regularidade. Ouvir essa frase de uma criança foi novidade para mim. O garoto de 7 anos a utilizou enquanto olhava para sua agenda e diante de tantos compromissos mostrava sua agitação e quase desespero. E não era para menos: compromissos e mais compromissos, de escola a esportes, ocupavam todo o dia do garoto que mais parecia um adulto em meio as atividades profissionais. Ligados na tela o tempo todo e com uma rotina de gente grande as crianças estão sendo educadas a manterem-se ocupadas o tempo todo. Ou melhor: a ocupar a mente o tempo todo. A não se desligarem, não permitirem o “ócio” por nenhum momento. Quais os prós e contras disso? Poderíamos dizer que as crianças estão sendo preparadas para uma sociedade rápida, onde pessoas precisam ocupar vários papeis e alguns deles ao mesmo tempo. Isso é positivo, quando chegarem na fase adulta, já estarão no ritmo adequado para encarar rotinas pesadas e estressantes. Mas, sinceramente, creio que os pontos negativos são maiores e mais evidentes. O ser humano foi criado com a necessidade do descanso. Ele é um ser que precisa “recarregar suas energias” através do sono – que hoje em dia vai diminuindo tanto em quantidade como em qualidade – e também precisa de pausas em sua rotina – daí a existência do dia de descanso (seja sábado ou domingo) ou da folga semanal. O ser humano precisa descansar, parar, recarregar suas forças e, porque não dizer, ter momentos de “ócio”. E essa palavra é a mais correta para descrever minha ideia. “Ócio” é originado do Latim otium  que por sua vez se de autium que se originou do Indo-Euroepeu “av-eo” que significa “estou bem, vou bem”. A palavra ócio expressa o bem estar que o descanso traz e a necessidade de algumas folgas para sentir-se bem, para refazer-se e estar pronto para os novos desafios. Só um detalhe sobre ócio: a mente precisa descansar e não apenas o corpo. Celulares à cabeceira da cama para responder mensagens de madrugada ou pernas para o ar com um notebook no colo não podem ser compreendidos como descanso. A mente precisa descansar e para isso a quebra da rotina, parar as atividades e fazer algo relaxante é necessário. E para os workaholics, que não querem parar de jeito algum pois se sentem desperdiçando o tempo, um aprendizado com a Bíblia: “No sétimo dia, Deus havia terminado sua obra de criação e descansou de todo o seu trabalho” (Gênesis 2:2). De certo modo podemos dizer que o ócio aparece intencionalmente na história como uma disciplina de parada necessária após as intensas atividades. Então, parar e descansar não é perder tempo. Permitir-se relaxar não é perder tempo. Introduzir a folga semanal, dormir adequadamente e ter momentos de repouso são na realidade ganhos e não perdas pois através deles é que estaremos preparados para as exigências e demandas do dia a dia. Permita-se descansar, permita-se o ócio programado como estratégia para recarregar-se e manter-se fortalecido. Aplicando o ensino Bíblico citado, aprenda a “descansar de todo o seu trabalho…”

São Paulo, maio de 2019

prgimenez@prgimenez.net

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