Sempre me perguntam o que é cosmovisão. Lendo hoje um excelente livro de Ronald Nash, ‘Cosmovisões em Conflito” encontrei essa excelente definição que compartilho abaixo:
“Em seus termos mais simples, cosmovisão é um conjunto de crenças sobre as questões mais importantes na vida. Sistemas filosóficos de grandes pensadores como Platão e Aristóteles eram cosmovisões. Toda pessoa madura e racional (…) tem sua própria cosmovisão, tão seguramente como Platão. Às vezes parece que poucas pessoas têm alguma ideia do que consiste sua cosmovisão, ou de que mesmo possuem uma. Mas ter consciência de nossa cosmovisão é uma das coisas mais importantes que podemos fazer para melhorar nossa autocompreensão; e conhecer internamente a cosmovisão dos outros é essencial para entendermos o que faz eles agirem de uma determinada forma. O ponto adicional, implícito, nisso tudo é que essas crenças devem ser coerentes de algum modo e formar um sistema. Um termo pomposo que pode ser útil aqui é esquema conceitual, pelo qual pretendo me referir a um padrão ou arranjo de conceitos (ideias). Cosmovisão, portanto, é um esquema conceitual pelo qual, consciente ou inconscientemente, aplicamos ou adequamos todas as coisas em que cremos, e interpretamos e julgamos a realidade. Uma das coisas mais importantes que podemos fazer pelos outros é ajudá-los a obter um melhor entendimento de sua cosmovisão. Também podemos ajudá-los a melhorar essa cosmovisão, o que significa eliminar inconsistências e fornecer novas informações que ajudarão a preencher lacunas em seus sistemas conceituais.”
(Cosmovisões em conflito: Escolhendo o cristianismo em um mundo de ideias de Ronald H. Nash)
O que é, afinal, uma ideologia? Quero deixar claro desde já que vejo as ideologias como tipos modernos do fenômeno perene da idolatria, trazendo em seu bojo suas próprias teorias sobre o pecado e a redenção […] Como as idolatrias bíblicas, cada ideologia se fundamenta no ato de isolar um elemento da totalidade criada, elevando-o acima do resto da criação e fazendo com que esta orbite em torno desse elemento e o sirva. A ideologia também se fundamenta no pressuposto de que esse ídolo tem a capacidade de nos salvar de um mal real ou imaginário que há no mundo (David T. Koyzis. Visões e Ilusões Políticas…)
“Descrição interessantíssima de como o processo de constituição de um ídolo pode ser elucidativo para compreendermos como surgem nossas ideologias. Pense nas idolatrias bíblicas. Como é que a adoração à deusa Astarte ou Astarote surgiu? Os fenícios elegeram um elemento da boa realidade criada por Deus—a saber, a fertilidade, ou mesmo a sexualidade—como aquele que controlaria todos os processos da sociedade em que viviam. Astarte, filha de Baal, era a principal deusa dos fenícios porque era a deusa da fertilidade, da sexualidade, da guerra e, por sua personificação, carregava os aspectos da realidade mais importantes para aquela cultura. Evidentemente, isolaram esse elemento dos outros e disseram “este é o nosso deus, que legisla sobre todos os outros aspectos da realidade”. Além disso, qualquer outra entidade que queira usurpar seu lugar será julgada como um agente do mal ao qual temos de resistir. É assim que as idolatrias funcionam e é assim também que funcionam as ideologias políticas. Quando um idólatra político, ou um ideólogo, recorta (abstrai) do campo social um aspecto dessa trama e o transforma no principal elemento avaliador de todos os demais aspectos da realidade—dizendo que todo o resto tem menos valor ou está em oposição ao verdadeiro desenvolvimento que uma sociedade pode alcançar—ele gera uma ideologia política. Por exemplo, quando alguma expressão dos socialismos elege para si uma parte da realidade criada por Deus—que é a sociedade ou as atividades comunitárias—e diz que esse é o fim supremo de todos os esforços não só políticos, mas da existência temporal humana, estamos diante de uma formulação perfeita de idolatria política em forma ideológica. Não é de assustar que, para a ideologia socialista, a iniciativa privada seja um grande mal social a ser combatido—pois qualquer entidade ou dinâmica social que ameace a estabilidade do ídolo deve ser combatida.”
Extraído de: Identidade e sexualidade: Reformando nossa visão de conceitos fundamentais de Pedro Dulci)
22 de janeiro de 2023. 11:00 horas da noite. A notícia que nunca queremos receber chegou. Mamãe havia falecido. Foi tão inesperado, tão rápido, tão doloroso. Notícia dada por meu pai, nos braços de quem ela partiu para a eternidade. Aos 79 anos de vida mamãe se encontrou com o seu salvador, Jesus Cristo, a quem lhe entregara a vida ainda moça e a quem servira por décadas com amor e dedicação. Foi ela a primeira da família a conhecer Jesus Cristo e através de seu testemunho toda a família Amorim se rendeu a Ele. Casada com João tiveram apenas um filho, eu! Nessas hora eu queria ter irmãos, para tentar repartir a dor que, diferente de todas as outras, machuca de uma forma única. Como se diz, perder a mãe é perder um pouquinho de si mesmo. Assim me sinto, como se tivessem arrancado alguma coisa de mim. Aos 17 anos de idade saí de casa e nunca mais voltei. Me acostumei com a distância, penso que não me acostumarei com a saudade de mamãe. A viagem de Florianópolis para São Paulo durante a madrugada foi longa e cheia de lembranças. Tentava não pensar no óbvio: teria que ver mamãe sem vida e sentir seu corpo frio e imóvel. E quando isso aconteceu me senti fraco, impotente, indefeso. Se encher de forças para abraçar papai foi muito mais obra divina do que meu talento ou preparação durante anos de ajuda a famílias enlatadas. O desejo era chorar como criança e não segurar firme no braço daquele que depois de décadas de convivência se despedia também de sua amada. Sou grato a Deus pelo tempo de vida dado a mamãe. Claro que gostaria de tê-la ao meu lado mais tempo, mas quem aprendeu a andar com Jesus sabe que Ele sempre faz o melhor, ainda que não concordemos. Esse final de ano foi uma despedida. A família inteira em Curitiba. Como mamãe estava feliz. Nem parecia doente. Caminhou, brincou, conversou bastante. Sua apetite, perdida já há algum tempo, parece que tinha retornado. Não sabia que aquele abraço antes de entrar no carro seria o último. Também não sabia que aquela conversa ao telefone no fatídico dia de sua morte seria a última. Sou grato por não saber e viver os últimos dias com mamãe sobressaltado com sua morte iminente. Nossos últimos momentos foram naturais, do jeito como devem ser os relacionamentos. Os prognósticos de futuro não eram dos melhores para mamãe, afinal o Mal de Alzheimer é cruel em vários aspectos. Até seu último suspiro ela sabia exatamente quem eram os seus amados e os amou chamando-os pelo nome. O que não podíamos prever é que silenciosamente um outro mal estava crescendo e exatamente naquele domingo causaria a parada de seu coração. Foi uma surpresa saber que “hiperglicemia” foi o grande motivador de todo o mal estar que a levou até o hospital de onde sairia sem vida. Gratidão e saudade. Dois sentimentos que conseguem conviver bem diante da dura notícia. Não sei se a gratidão é maior do que a saudade, o que sei é que hoje só posso dizer que meu coração é grato a meu Deus por ter-me dado mamãe e que esse mesmo Deus é quem está fortalecendo uma família que cheia de saudades segue firme na certeza de que chegará o dia, ao nos encontrarmos na eternidade, quando só sobrará um sentimento: a gratidão.